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O que Darwin teria encontrado em São Carlos?

  • Em 1832, Charles Darwin visitou o Brasil. Caso tivesse passado por nossa região, o pesquisador naturalista encontraria um vasto material fóssil de animais pré-históricos.

Por Marcelo Adorna

Se Darwin tivesse passado pela nossa região quando chegou ao Brasil, ele teria encontrado alguns fósseis muito diferentes daquilo que até então se conhecia na época, os ossos de animais pré-históricos. Por aqui ele teria encontrado icnofósseis, pegadas e pistas de animais primitivos que foram preservadas nas rochas. Mas o que levou a essa preservação e de quem são tais pegadas?

No final do Período Jurássico, há mais de 140 milhões de anos, um imenso bloco continental chamado Gondwana reunia os atuais continentes do hemisfério sul, mais a Índia, em um único supercontinente. Essa extensa área continental favoreceu a instalação de um clima muito árido em seu interior, constituindo um paleodeserto que cobriu uma superfície de 1.600.000 km². Foi o maior deserto de areia que já existiu na história do planeta Terra.

Por milhões de anos, essas areias sofreram um longo processo de compactação e cimentação natural, transformando-se em um arenito que os geólogos denominam de Formação Botucatu. As camadas de sedimentos que compõem essas rochas são encontradas na Bacia Sedimentar do Paraná, desde o sul do Estado de Minas Gerais até o Uruguai. No interior de São Paulo, no município de São Carlos, elas são exploradas comercialmente e, além disso, são particularmente importantes, pois representam as dunas fósseis do antigo deserto onde animais pré-históricos deixaram suas pegadas.

Esses animais caminhavam por este deserto em busca de pequenas lagoas que se formavam entre as dunas, em áreas semelhantes aos oásis atuais, onde pudessem encontrar água. Eram dinossauros ornitópodes (herbívoros bípedes), terópodes (carnívoros), mamíferos, outros vertebrados ainda desconhecidos, e um grande número de pequenos invertebrados como besouros, aranhas, escorpiões e larvas. Quando caminhavam pelas dunas, compactavam a areia onde pisavam deixando, além das pegadas, elevações em forma de meia-lua, resultado do esforço dos animais ao se locomoverem. As pegadas eram então recobertas por camadas de areia seca trazida pelo vento, que as protegeriam para sempre.

Curiosamente, embora exista um grande número de pegadas, os ossos desses animais não são encontrados nessas rochas. É possível que o clima rigoroso, associado ao desgaste pela ação erosiva dos grãos de areia transportados pelo vento, além da dissolução causada pela acidez do ambiente, tenha sido a causa da destruição completa dos esqueletos desses animais. Isto explica o motivo pelo qual não encontramos fósseis de dinossauros ou de outros animais nas rochas deste paleodeserto, mas somente suas pegadas. A raridade de fósseis corporais faz com que todas as informações a respeito da vida que levavam restrinjam-se sempre àquelas baseadas na interpretação das impressões de suas pegadas, pistas e escavações.

A partir de pegadas fossilizadas é possível recuperar informações sobre a anatomia e sobre a vida do animal, assim como suas relações ecológicas com o meio ambiente e com os outros animais. Pegadas, bem como outras marcas de atividades de animais preservadas nas rochas, são conhecidas como icnofósseis e são o objeto de estudo de uma importante subdivisão da Paleontologia conhecida como Paleoicnologia.

O final deste deserto foi selado por um dos maiores eventos magmáticos da história da Terra, ocorrido durante a fragmentação do Gondwana no início do Período Cretáceo. Um imenso volume de magma, com centenas de metros de espessura, foi expelido por fissuras da crosta durante milhões de anos. Este evento provocou alterações severas no clima da região, destruiu o ambiente dos animais e plantas e mudou a paisagem, causando o desaparecimento de muitas espécies.

Marcelo Adorna é professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos.

Fim da reportagem