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Jornalismo sobre astronomia também gosta de uma catástrofe

Que a imprensa gosta de explorar o sensacionalismo, esmiuçando notícias sobre acidentes e assassinatos, todo mundo já sabe. Curioso é encontrar uma abordagem semelhante em matérias de ciência, e até de astrofísica. Nem a vida das galáxias e dos planetas de fora do sistema solar parece escapar de disputas, catástrofes, desgraças de um modo geral.

Essa foi a constatação a que chegamos, quando fizemos um estudo mais atento de matérias do jornal Folha de São Paulo sob a retranca “astronomia”, publicadas entre 2007 e 2009, durante um curso de extensão sobre divulgação científica, oferecido na Universidade Federal de São Carlos.

Inicialmente, dois eventos chamaram a atenção dos pesquisadores envolvidos no curso: a notícia veiculada no portal Universo Online sobre a passagem do cometa Lulin, em fevereiro de 2009, que foi comentada por astrólogos, dizendo que o cometa estava influenciando a crise econômica mundial; e a chamada de capa do Jornal da Cidade de Bauru, que noticiava a chegada de um outono atípico e a mudança do ano astrológico, ambos eventos tratados com o mesmo nível de seriedade e importância.

Os dois exemplos motivaram uma discussão animada entre os participantes do curso – professores de ciências e estudantes de física em sua maioria – que logo responsabilizaram os jornalistas “ignorantes” por tamanhas distorções. Eu sou jornalista e fiquei surpresa ao ver como pessoas com um conhecimento científico consistente nas suas áreas de origem tendem a usar o senso comum – e até mesmo uma certa imaginação ingênua – para interpretar um fenômeno sobre o qual não possuem conhecimento científico. Foi aí que resolvemos agregar as ciências da comunicação a um curso inicialmente focado em astronomia.

Estudos críticos sobre a cobertura que os jornais de massa fazem sobre a ciência são abundantes, no Brasil e no mundo, e boa parte das conclusões apontam o problema da espetacularização da ciência que a mídia costuma fazer. Cientistas são tratados como pessoas excêntricas, doenças são caracterizadas como ameaças incontroláveis, novos métodos de cura parecem verdadeiros milagres, aspectos pitorescos de estudos científicos ganham mais destaque do que o conhecimento resultante do trabalho. Por que isso acontece?

Certamente, tanto o puro descuido, quanto a falta de conhecimento do repórter são fatores objetivos que resultam em muitos erros e distorções. Mas um exame em larga escala identifica certos padrões de distorção. E a existência de padrões sugere que o problema pode ser interpretado como resultado mais de uma prática social estabelecida, do que da motivação individual de cada jornalista. Afinal, são pessoas diferentes, em momentos diferentes, jornais diferentes, mas operando de modo semelhante no trato com a informação.

Quem estuda cientificamente a mídia conhece ao menos dois modelos teóricos que explicam as razões da distorção. Um deles é a chamada teoria do newsmaking, que começou no campo da etnografia – um ramo da antropologia – e sistematizou um conjunto de práticas que compõem a mentalidade típica do jornalista que atua dentro de uma redação.

De um modo simplificado, o modelo do newsmaking fornece essa interpretação: como as redações jornalísticas recebem um volume muito grande de informações, que precisam ser selecionadas e ordenadas por um grupo de jornalistas, trabalhando contra o relógio, é preciso padronizar os modos de produção, como numa linha de montagem. Assim, é preciso ter critérios para selecionar os fatos mais importantes e modos padronizados de organização desses fatos, para garantir a coesão do jornal.

Os critérios de seleção se baseiam no conceito de “noticiabilidade”. Segundo este conceito, quanto mais inesperado e impactante for um fato, mas chances ele tem de virar notícia. Além disso, quanto maior for o número de pessoas que serão, de algum modo, afetadas pelo fato, e quanto menor for a chance de haver ambigüidades, maior é o valor de notícia de um acontecimento qualquer. Por aí já dá para imaginar porque assuntos da ciência – em geral complexos e nem sempre calcado em certeza absolutas – tendem a virar aberrações noticiosas, inervando os cientistas.

A idéia de noticiabilidade acaba determinando o modo como os jornalistas enxergam a realidade, através de processos de seleção, exclusão e ênfase para construir fatos jornalísticos. Seleção, ênfase e exclusão são procedimentos descritos por outro modelo teórico, chamado de “enquadramento”.

A idéia de enquadramento vem originalmente da psicologia e se refere ao modo peculiar como grupos ou indivíduos encaram e interpretam a realidade. A noção de enquadramento está, assim, intimamente ligada a padrões culturais. E a cultura profissional também pode ser considerada um tipo de padrão.

Trazido para o campo da comunicação, o conceito de enquadramento nos ajuda a identificar os padrões que caracterizam a atividade mental do jornalista, quando está produzindo notícias. Esses padrões são explicitados no modo como as notícias são formatadas e publicadas nos jornais. Analisando a cobertura de um fato ou tema, o pesquisador consegue identificar modos de enquadrar a realidade subjacente à cobertura e, assim, e nos ajuda a entender como o jornalismo funciona.
A maior parte dos estudos de enquadramento foca a cobertura de assuntos ligados à política e, há algum tempo, são conhecidos os padrões desse tipo de notícia. Os pesquisadores falam, por exemplo, no enquadramento “corrida de cavalos” como um padrão na cobertura de eleições: ao invés de enfatizar as propostas políticas dos candidatos, os desafios concretos a serem enfrentados, as manchetes, lides (o parágrafo inicial das matérias) e infográficos enfatizam as chances de derrotas ou vitórias de cada candidato, bem como as estratégias que serão adotadas pelos adversários para reverter o “páreo” - abordagem que os pesquisadores também chamam de “enquadramento estratégico”.

Outro padrão bastante conhecido é o enquadramento episódico, que ocorre quando o jornalista opta por enfatizar um aspecto irrelevante, porém curioso, de um fato maior e mais complexo. Uma insinuação de um político num discurso acaba tendo mais destaque do que uma política pública que tenha motivado o discurso, por exemplo. Toda sorte de conflitos, intrigas e segundas intenções ocultadas pelos políticos são supostamente reveladas pelo jornalista. Na prática, dados relevantes sobre a política – o elemento que de fato repercute na vida das pessoas – são excluídos, dando lugar à ênfase de elementos sem importância efetiva.

A prática de enfatizar o fato episódio, excluindo o contexto, é tão arraigadas, que é possível identificá-las em assuntos díspares como o são a política e a astronomia. E não é preciso vasculhar muito para identificar os padrões:

“Inglês usou telescópio para ver a Lua antes de Galileu”
No ano em que o mundo comemora o quarto centenário da introdução do telescópio na astronomia, um obscuro acadêmico inglês ameaça roubar do italiano Galileu Galilei (1564- 1642) o mérito de ter feito a primeira observação celeste com esse tipo de instrumento óptico.

Rival ataca política externa e põe presidente do Irã na defensiva
O principal adversário nas eleições do próximo dia 12 do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, o acusou ontem de impor uma política exterior nociva e degradar internacionalmente o país ao questionar o Holocausto.
Nas duas matérias, o elemento de conflito foi posto em primeiro plano: a disputa pelo status de pioneiro no uso do telescópio, a disputa pelo posto de presidente.

Quando astro explodir, noite vai virar dia na Terra
Para quem vive no hemisfério Sul, pode haver algum mês nos próximos anos em que a noite vire praticamente dia. Tudo por causa da Eta Carinae. A explosão definitiva dessa estrela, que pode ocorrer "a qualquer momento" - hoje ou daqui a muitos séculos-, deve liberar uma energia equivalente à luminosidade de dez luas cheias. "Seria  praticamente um mês sem noite", calcula Augusto Damineli, da USP.

Crise convulsiona classe média no bloco europeu
A economia está causando convulsões políticas na Europa. Na Islândia e na Letônia, os governos caíram; greves ou protestos irromperam na Grécia, na Irlanda, na França, na Alemanha, no Reino Unido, na Ucrânia e na Bulgária. Os tumultos financeiros abalaram até mesmo os baluartes mais distantes do continente: a ilha francesa de Guadalupe, no Caribe, sofreu greves violentas, enquanto a Rússia teve de enviar policiais de avião para a distante e gélida Vladivostok, a fim de conter protestos de rua. O surto de inquietação não era esperado no continente. Muitos europeus imaginavam que seriam poupados dos piores efeitos de um desastre gerado nos subúrbios dos EUA. Mas a crise se espalhou.

Novamente, um enquadramento em comum: a catástrofe, ainda que hipotética, é enfatizada nos títulos e lides das duas matérias.

O quadro resumidamente apresentado neste texto nos leva a questionar até que ponto é possível conhecer a realidade lendo jornais. Se a ciência muitas vezes nos parece “coisa de cientista”, confusa e distante da nossa realidade, é bom pensar em que medida essa não é só mais uma distorção do jornalismo.

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Alexandra Bujokas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Alexandra Bujokas é graduada em jornalismo, doutora em educação e tem pós-doutorado em Estudos de Mídia pela Open University, Inglaterra. É coordenadora de projetos do LAbI-UFSCar.
  • e-mail: bujokas@uol.com.br