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Ainda sobre imagens distorcidas de língua e de ensino na mídia

No artigo publicado nesta coluna na edição passada, falei acerca da necessidade premente de a mídia, nos seus mais diversos suportes, qualificar o debate no tocante às questões de linguagem. Qualificar o debate significa possibilitar que não apenas a voz da tradição gramatical seja ouvida, mas também que outras vozes, como as das Ciências da Linguagem, possam transitar livremente pela mídia. Esse tipo de atitude deixará claro, entre outras questões, o quanto a voz monológica da tradição gramatical se organiza basicamente a partir de preconceitos e estereótipos. Em outras palavras, seus argumentos não possuem fundamento científico algum.

Neste texto, darei continuação à reflexão iniciada no artigo anterior, discutindo especificamente sobre a necessidade de a mídia também qualificar o debate sobre o ensino de língua portuguesa na escola. Para tanto tomo como ponto de partida o enunciado "... com a repetição, [podem gerar] um retrocesso no aprendizado...", divulgado na matéria "Nas ruas um castigo para a língua portuguesa", anteriormente analisada. Com o enunciado, o jornal erroneamente acredita que o ensino de uma língua se efetiva pela mera repetição das formas linguísticas. Se assim fosse bastaria decorar certo número de formas linguísticas que nossos problemas de ensino de língua estariam resolvidos. Quem passou por um curso de língua estrangeira que adota essa abordagem de ensino e que viajou para o exterior sabe o quanto a memorização de formas é inútil para que se possa comunicar minimamente com o outro.

Tratar qualificadamente o ensino do português significa ouvir, entre outras, por exemplo, a voz de um dos domínios das Ciências da Linguagem, a saber, a Análise do Discurso. Para esse domínio, a linguagem não ocorre em um vácuo social, portanto, textos orais, escritos e multimodais não têm sentido em si mesmos, mas através de seus interlocutores (escritores e leitores, por exemplo) situados no mundo social com suas variedades de língua, ideologias, valores, projetos políticos, histórias, desejos, construindo seus significados para agirem na vida social. Ou seja, diferentemente do que deixa entender o jornal, ao asseverar que língua se aprende ou desaprende por repetição, a língua não é uma variante antropológica destituída de historicidade.

Para deixar menos árido o que estamos dizendo, tomemos um outro exemplo da mídia impressa, desta vez o enunciado "Dilma agora fala em espionagem", publicado no Jornal Folha de S. Paulo em 2008. Se fossemos fazer uma análise sintática monológica desta frase, teríamos "Dilma" como sujeito da oração, "agora fala em espionagem" como predicado e "agora" como um adjunto adverbial de tempo, cuja função sintática é modificar o sentido do verbo "falar", atribuindo-lhe uma circunstância de tempo.

De acordo com as gramáticas tradicionais, instrumento linguístico que fundamenta a compreensão do jornal em relação à língua e ao seu ensino, os adjuntos adverbiais são termos acessórios da oração, ou seja, a sua retirada não acarretaria prejuízo ao sentido da  frase. Desse modo, o enunciado em análise com ou sem o adjunto adverbial "agora", por tratar-se de um termo acessório que desempenha uma função secundária na oração, teria o mesmo significado. Desse ponto de vista, portanto, tanto faz o jornal dizer em sua manchete de capa "Dilma agora fala em espionagem" ou "Dilma  fala em espionagem".

Observem, contudo, que a presença do "agora" no enunciado em questão faz toda a diferença, pois ele nos remete não somente a uma modificação no verbo "falar", mas principalmente a uma voz que fala antes, a um discurso anterior, a algo que foi pensado antes independentemente em outro lugar, a uma memória do dizer e que é trazida materialmente para a frase. Ou seja, o "agora" estabelece não apenas uma cronologia, uma relação temporal entre um dizer presente e um dito passado, mas se constitui num índice de historicidade, isto é, no ponto mesmo em que o discurso se ancora na língua para trazer a história à tona. Esse índice de historicidade é uma materialidade linguístico-discursiva na qual o jornal se apoia para marcar a sua posição discursiva e também a posição discursiva do discurso anterior com o qual polemiza. Trata-se de um caminho aberto na discursividade no qual o jornal imprime a sua marca em forma de oposição ao discurso anterior, investindo uma coloração própria ao seu discurso, o que deixa entrever a sua posição ideológica. Em outros termos, trata-se de um elemento linguístico-discursivo capital que marca um confronto de vozes entre duas posições enunciativas: uma afirmando que "Dilma não admitia a existência e nem a autoria do dossiê" e a outra que "Só agora Dilma admite a existência do dossiê e que este é fruto de espionagem". Essas posições em confronto nos mostram que os sentidos não estão colados às palavras, mas que são produzidos a partir de uma ferrenha disputa entre os interlocutores. Evidenciar aos nossos alunos a presença desse índice de historicidade nos discursos é fundamental para a formação de leitores mais críticos. Essa compreensão é extremamente importante no mundo altamente semiotizado da globalização, uma vez que possibilita situar os discursos a que somos expostos e recuperar sua situacionalidade social ou seu contexto de produção e interpretação: quem escreveu, com que propósito, onde foi publicado, quando, quem era o interlocutor projetado e, acima de tudo, compreender que nem todos têm o direito à interpretação.

Levar em consideração os aspectos anteriormente ditos tem uma implicação prática, porque possibilita trabalhar em sala de aula não com a falsa ideia de que língua se aprende ou desaprende por repetição, mas com uma visão de linguagem que fornece elementos para os alunos aprenderem, na prática escolar, a fazer escolhas ético-emancipatórias entre os discursos que circulam. Isso possibilita, por exemplo, aprender a problematizar o discurso hegemônico do monossetorialismo do agronegócio da cana-de-açúcar (tão enaltecido em nossa região), o do extrativismo irresponsável de nossos recursos naturais ou compreender por quais razões o discurso dominante não aceita outras variedades de língua diferentes da língua padrão. Até o próximo encontro.

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Roberto Leiser Baronas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Doutor em Lingüística e Professor no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSCar. Traduziu diversos artigos e livros de Dominique Maingueneau, Jacques Guilhaumou, Oswald Ducrot e Jean-Jacques Courtine. É organizador e autor de diversos livros e artigos no domínio da Análise do Discurso de orientação francesa. Foi um dos elaboradores do Plano Estadual de Ciência e Tecnologia para o Estado de Mato Grosso - 2004/2007 e também do projeto de criação do Centro Estadual de Educação Profissional e Tecnológica de Mato Grosso - CEPROTEC-MT. É editor responsável pela Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem - Linguasagem. Tem experiência na área de Lingüística e Formação de Professores com ênfase no domínio da Análise do Discurso, atuando principalmente nos seguintes temas: análise do discurso, discurso político, derrisão, interpretação, leitura e lingüística.
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