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Ainda sobre a necessidade de qualificação do debate em relação à língua e ao seu ensino

JOÃO E MARIA
Chico Buarque (Brazil) - 1977

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock
Para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim

No artigo anterior, tomando como ponto de partida duas manchetes de capas de jornais impressos, defendemos a tese da necessidade premente de se qualificar o debate midiático no tocante às questões de língua e de seu ensino. Neste texto, tento evidenciar como essa qualificação pode se dar na escola a partir da análise enunciativa de uma música. Meu texto transitará mais especificamente por uma região de fronteira, não muito tranquila, entre sintaxe e enunciação.


A música João e Maria de Chico Buarque (1977), citada acima, constitui-se no ponto de partida para a nossa reflexão sobre o funcionamento enunciativo dos adjuntos adverbais. Mais detidamente tomo para análise o adjunto adverbial “agora”, fartamente dado a circular nesta música de Buarque de Holanda.


Já no primeiro verso a o “agora” é textualizado: “Agora eu era o herói”. É possível observar nesse enunciado que o elemento “agora”, originariamente concebido pelas gramáticas tradicionais de Língua Portuguesa do ponto de vista morfológico como um advérbio de tempo ou também como conjunção em certos usos e, do ponto de vista sintático como um adjunto adverbial de tempo, cuja função nesse caso é modificar o sentido do verbo "ser", reescrito em “era”, atribuindo-lhe uma circunstância de tempo, funciona exprimindo uma concomitância não em relação a um marco temporal pretérito, como era de se esperar de um verbo no passado, mas em relação ao momento atual.


Numa leitura pouco atenta, é possível afirmar que esse tipo particular de concomitância instaura certa contradição de sentido. Falamos em contradição, uma vez que, trata-se de um elemento geralmente empregado para indicar uma circunstância de tempo presente, que modifica o sentido do verbo também no presente que o acompanha. Entretanto, o tempo verbal empregado no enunciado é o passado, ou para ser mais preciso, o pretérito imperfeito. Com base nessa leitura pouco atenta, teríamos então um adjunto adverbial “agora” que indica uma circunstância de tempo presente modificando o sentido de um verbo “era” no pretérito imperfeito. Desse ponto de vista, teríamos um problema de ordem semântica, pois “Agora eu era o herói” estabelece uma relação de sentido entre termos (“agora” - tempo presente e “era” - tempo passado) que indicam circunstâncias temporais contraditórias..

Ademais, o verbo no pretérito imperfeito segundo as gramáticas tradicionais é empregado para “evocar a noção de continuidade, de processos que aconteciam no passado de maneira habitual ou constante; reportar circunstâncias e o ambiente em que se desenrolavam as ações no momento em que se situa a narrativa; fazer um pedido de maneira polida e expressar um processo em desenvolvimento quando da ocorrência de outro”. O caso em análise não se enquadra em nenhum dos empregos anteriores. Para fugir desses problemas o “correto” seria dar uma outra configuração para o enunciado, transformando-o em “Agora eu sou o herói”. Nesse caso, “harmonizaríamos” o enunciado, deixando idênticos os momentos de referência e de enunciação.

Entretanto, se reconfigurarmos o enunciado, deixamos de descrever e explicar o funcionamento linguístico-enunciativo do “agora”. É preciso aprofundar um pouco mais essa discussão sobre o emprego do “agora”, descrevendo, explicando não apenas a sua “presença física” no enunciado – na materialidade linguística – fazendo coincidir os momentos de referência e de enunciação, mas as condições enunciativas mesmo do seu emprego. Assim procedendo, verificaremos que a leitura anterior não se sustenta. Não se sustenta pelo fato de ela não considerar que há, por exemplo, um sujeito que coloca esse elemento no interior de um enunciado e estes dois em funcionamento. Sujeito aí entendido não como o sujeito da frase - é de quem (ou do quê) fala o verbo – das gramáticas tradicionais, mas um “eu”, um enunciador que se apropria do sistema linguístico e transforma esse sistêmico da língua - as suas regularidades fonológicas, morfológicas, sintáticas, semânticas - em discurso.

Colocado em discurso por um enunciador situado num espaço, o tempo “agora” deixa de estar submetido a uma ordem lógica (matemática) da língua, que estabelece uma relação direta entre as palavras e as coisas num tempo cronológico com começo, meio e fim e passa a ser condicionado pela ordem do enunciativo, da história. Ademais, os advérbios de tempo no entendimento de Fiorin (1996, p. 162), “articulam-se em um sistema enunciativo e enuncivo. Aquele centra-se no momento de referência presente, idêntico ao momento da enunciação; este organiza-se em torno de um momento de referência (pretérito ou futuro).  A esses momentos de referência enunciativo e enuncivo segundo Fiorin “aplica-se a categoria topológica concomitância versus não-concomitância (anterioridade versus posterioridade).

Assim, a circunstância de tempo estabelecida entre o “agora” e o “era” no enunciado em questão e, por extensão em toda a música, não é mais de um tempo real, cronológico, com começo, meio e fim, mas de um tempo em que os limites inicial e final são imprecisos. Trata-se na verdade de uma marcação temporal com valor de presente, que além de situar o evento do qual fala com relação ao momento em que fala, circunscrevendo-os em momentos distintos, cria um evento num tempo ficcional. Tempo ficcional esse que é reforçado em toda a música pelo emprego dos verbos no pretérito imperfeito – enfrentava, guardava, ensinava. Instaura-se então um tempo irreal, hipotético em que o enunciador ao mesmo tempo em que “enfrentava os batalhões”; “os alemães e seus canhões”; “guardava o [seu] bodoque”; “e ensaiava o rock para as matinês”. Os verbos “enfrentava”, “guardava”, e “ensaiava” todos no pretérito imperfeito exprimem uma concomitância não em relação a um marco temporal pretérito, mas ao agora. Esses verbos no imperfeito, embora pertençam ao modo indicativo, modo que o falante utiliza para situar a ação na realidade, ao situarem os fatos no passado realizam o que os semioticistas chamam de embreagem, procedimento enunciativo que, nesse caso, usa o tempo que destaca os fatos do presente para expressar acontecimentos destacados da realidade.

Desse modo, levando-se em consideração o momento histórico em que esta música foi produzida, década de setenta, período dos anos de chumbo ditadura militar brasileira: “Agora era fatal; Que o faz-de-conta terminasse assim; Pra lá desse quintal”, o tempo instaurado pelo adjunto adverbial “agora” e pelos verbos no pretérito imperfeito, é o tempo mítico: do desejo da liberdade de expressão, da democracia, perdidas com o golpe militar de 1964. “E você era a princesa; Que eu fiz coroar; E era tão linda de se admirar; Que andava nua pelo meu país”. É o desejo do poeta e de milhões de brasileiros à época, textualizado em forma de metáfora na figura de uma linda princesa, de que a democracia volte ao país sem nenhum tipo de roupa que a censure. Até o próximo encontro.

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Roberto Leiser Baronas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Doutor em Lingüística e Professor no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSCar. Traduziu diversos artigos e livros de Dominique Maingueneau, Jacques Guilhaumou, Oswald Ducrot e Jean-Jacques Courtine. É organizador e autor de diversos livros e artigos no domínio da Análise do Discurso de orientação francesa. Foi um dos elaboradores do Plano Estadual de Ciência e Tecnologia para o Estado de Mato Grosso - 2004/2007 e também do projeto de criação do Centro Estadual de Educação Profissional e Tecnológica de Mato Grosso - CEPROTEC-MT. É editor responsável pela Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem - Linguasagem. Tem experiência na área de Lingüística e Formação de Professores com ênfase no domínio da Análise do Discurso, atuando principalmente nos seguintes temas: análise do discurso, discurso político, derrisão, interpretação, leitura e lingüística.
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