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Tecnologia ou Ciência?

É comum não apenas no meio acadêmico (universidades, centros de pesquisa) como também na imprensa e na sociedade civil, de um modo geral, fazer-se a distinção entre tecnologia e ciência.  Isto está de uma certa forma calcado também na tradição universitária de alguns países, particularmente Alemanha, onde as engenharias (identificadas com tecnologia) são oferecidas nas chamadas Technische Hochschulen (Escolas Superiores Técnicas) – algumas das quais hoje são chamadas de Technische Universitäten, Universidades Técnicas, pois oferecem mais do que apenas cursos de engenharia. Agora, aquelas chamadas exclusivamente de Universität, sem o qualificador technisch, oferecem todas as carreiras menos as engenharias. A tradição ainda se faz refletir na maneira como as universidades daquele país são estruturadas. Mas existe uma diferença entre tecnologia e ciência? Para mim a fronteira não é tão bem demarcada como alguns possam imaginar que seja. Obviamente um físico matemático estudando propriedades de simetrias de equações diferenciais não está muito interessado em possíveis aplicações práticas de seu trabalho, mas sim em entender melhor a estrutura matemática de modelos da natureza que nos permitem melhor entender seu funcionamento. Da mesma maneira, um cientista preocupado em desenvolver maneiras de extrair petróleo de grandes profundezas marítimas está, na maioria das vezes, se usando de coisas já conhecidas para resolver um problema prático. Porém, as consequências da pesquisa dita pura, bem como da pesquisa aplicada, podem ter reflexos uma sobre a outra.

Um exemplo a meu ver muito ilustrativo desta íntima relação  entre tecnologia e ciência pode ser ilustrado com a descoberta da teoria da relatividade de Einstein (e de Lorentz, Poincaré, para citar apenas alguns nomes). Esta simbiose está muito bem explorada e claramente argumentada no livro “Os relógios de Einstein, os Mapas de Poincaré”, do físico e historiador da ciência americano Peter Galison. Poucos sabem, mas o grande matemático francês Poincaré, na verdade, era formado em engenharia de minas pela École Polytechnique de Paris, tendo sido responsável pela análise técnica de um acidente que ocorreu nas minas de Magny. Einstein era físico, mas seu trabalho no escritório de patentes em Berna, onde elaborou a teoria da relatividade especial (diferente da chamada “relatividade geral”, esta elaborada anos depois quando já professor em Berlin) envolvia a análise de desenhos técnicos de patentes.

Mas fica a pergunta: e o que o trabalho de Poincaré enquanto engenheiro e Einstein enquanto técnico de patentes tem a ver com a teoria da relatividade? Bem, para entendermos, basta saber que a teoria da relatividade é o que nós físicos chamamos da teoria do espaço-tempo, ou seja, da relação íntima entre medições de distâncias espaciais e temporais (com réguas e relógios) e sua relação com o estado de movimento destes instrumentos. Sem entrar em detalhes, a relatividade é basicamente uma teoria da mais básica tecitura do nosso universo. Nos anos precedentes à teoria da relatividade, o mundo presenciou o surgimento da telegrafia e do “encurtamento” de distâncias entre países, quer seja pelos avanços nos meios de comunicação, quer seja pelos meios de transporte (linhas férreas e navios). Com relação aos trens, em particular, havia o problema da sincronização de relógios entre diferentes cidades pois, e poucos sabem disso, antes da adoção do tempo padrão nos EUA, em 18 de novembro de 1883, enquanto em Nova Iorque os relógios marcavam 12h12min, em Boston os relógios marcavam 12h24min e em Cincinnati 11h36min. Por aí podemos ter uma noção da confusão causada pelos diferentes “fusos horários” em locais tão próximos. O mesmo ocorria na Europa. Era então necessário desenvolver métodos de sincronização de relógios, o que implica também na precisa determinação da longitude das cidades, uma vez que o horário é definido pela distância leste-oeste a partir de um meridiano padrão (no caso Greenwich). Com o surgimento da telegrafia logo se percebeu a possibilidade de ajuste de diferentes relógios em diferentes localidades por meio de sinais telegráficos. Einstein, trabalhando no escritório de patentes, teve que estudar detalhadamente diversos pedidos de “relógios elétricos”, que se sincronizavam trocando sinais elétricos entre si, para ver se realmente funcionavam. Poincaré liderou uma comissão de especialistas cujo objetivo era determinar a correta longitude de algumas cidades na América do Sul e da África (um velho problema da determinação de longitude é a correta sincronização de dois relógios, um no local a partir do qual se vai medir a longitude – o meridiano inicial – e outro no local cuja longitude pretende se determinar). O envolvimento intenso destes dois gênios com um problema prático (tecnológico) de sincronização de relógios e mapeamento do planeta levou-os a considerar o que seria exatamente o conceito físico de “simultaneidade” e a maneira pela qual se poderia determiná-la. Havia também, e não devemos nos esquecer, toda uma série de problemas de cunho puramente científico que as leis da física então não podiam explicar (a famosa questão do éter e da propagação de ondas eletromagnéticas). Mas como Galison argumenta, se estes problemas científicos deram o impulso inicial que culminaram na teoria da relatividade, foram problemas da tecnologia de então que moldaram a maneira pela qual Einstein e Poincaré pensaram no problema.

 

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Silvio Dahmen
    Porto Alegre, RS, Brazil
  • Professor adjunto do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor visitante da Universidade de Würzburg pela Fundação Alexander von Humboldt (2006/2007), onde ministrou curso de História da Física. Atua na área de Física Estatística (Modelos Integráveis e Fenômenos Críticos), Tribologia (Teórica e Experimental) e História da Física.