• edição 15
  • home
  • entrevistas
entrevistas
  • fonte pequena
  • fonte pequena
  • fonte pequena

"Darwin não é herói"

  • "Ricardo Waizbort, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz."

No ano em que se comemora 200 anos do nascimento de Charles Darwin, Ricardo Waizbort, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, fala sobre como as ideias do naturalista britânico chegaram ao Brasil, diz que o homem, há séculos, cria novas espécies de plantas e animais e desmistifica a figura de Darwin, afirmando que nenhuma Ciência pode ser de um homem só.

CC - Em que momento e de que maneira as ideias de Darwin chegaram ao Brasil?

A partir de 1870, muitas ideias vindas da Europa, entre elas o evolucionismo e o positivismo, começaram a ser usadas por escritores, médicos e advogados aqui no Brasil. A geração de 1870/75 tem quatro manifestações a favor do darwinismo que são consideradas as quatro primeiras no País. São elas: o livro "Funções do Cérebro", de Guedes Cabral, médico sergipano que trabalhava na Bahia; os escritos sobre o darwinismo do médico paulista Miranda Azevedo; os trabalhos do jurista e grande escritor Silvio Romero; e o livro "O Doutor Benignus", de Emilio Zaluar, considerado o primeiro livro de ficção científica do Brasil - um livro muito ruim do ponto de vista literário, mas com uma referência muito clara ao darwinismo.

CC - Como as ideias de Darwin foram apropriadas pelos pensadores brasileiros?

Algumas pessoas dizem que existem tantos darwinismos quanto pessoas que se apropriam dele. O darwinismo é uma teoria científica muito sofisticada e poucas pessoas foram capazes de realmente compreendê-lo, principalmente no Brasil e na América Latina. O que se fez foram interpretações dessa teoria científica que Darwin estava propondo na Europa junto com outros cientistas como Alfred Russel Wallace. Por exemplo, o darwinismo que chegou ao Brasil via uma pendência inevitável da evolução da vida em termos de progresso. Para Darwin, o progresso é algo correspondente a questões locais, ou seja, o que era bom em um determinado momento e em uma região qualquer, podia deixar de ser se o ambiente fosse mudado. Outro ponto fundamental é que a teoria do Darwin não é sobre a evolução dos organismos individuais que evoluem - progridem - durante a vida, como muitas vezes reproduzem por aí, mas é a evolução de populações que com o passar do tempo geológico, mais o tempo intergeracional [entre gerações], vão mudando lentamente e se adaptando às condições locais.

CC - Estando à mercê de diferentes interpretações, quais os maiores erros que foram cometidos em relação ao darwinismo?

O sistema de Darwin é, realmente, muito diferente do uso que se quis fazer dele em um determinado momento, por exemplo quando Hitler se baseou em alguns métodos, que ele acreditava serem cientificamente corretos, para o aperfeiçoamento da "raça". As ideias de Darwin de que as espécies podiam mudar levou muita gente a pensar que a espécie humana poderia rapidamente mudar e que se poderia mudar a espécie humana intencionalmente. A Alemanha nazista é a culminação de um processo que estava acontecendo em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil e nos EUA, no qual se pretendia melhorar a "raça humana" tornando-a mais branca. Uma política execrável em todos os sentidos, sem nenhuma fundamentação cientifica, e nenhuma justificação moral.

CC - Na sua opinião, qual é a qualidade do ensino sobre Darwin oferecido nas escolas?

Esta é uma grande questão e um grande problema. Eu acho que o darwinismo é muito mal ensinado nas escolas Brasil afora. O ensino da evolução é muito complicado porque envolve (ou deveria envolver), além de todas as disciplinas biológicas, as disciplinas da área de Humanas, aquelas que se referem ao homem enquanto ser social e cultural. Como nas escolas é tudo muito fragmentado, separado, a amplitude do darwinismo acaba se perdendo.

CC - Falando no homem enquanto ser social e cultural, como a questão da falta de explicação para o surgimento da linguagem, por exemplo, acaba se tornando um problema para a aceitação das teorias evolucionistas?

O fato de o homem ter toda essa dimensão cultural e social não significa que isso é uma coisa extraordinária dada como um dom por uma entidade sobrenatural. A questão que ainda está por explicar é como esse processo de cultura aparece, como a linguagem se desenvolve nas espécies que foram antepassadas da espécie humana, ou seja, temas ligados à antropologia e a uma porção de outros campos. De todo modo, a teoria evolutiva ainda é, na opinião da maioria dos cientistas, filósofos e historiadores, a melhor explicação que a gente tem, isto é, uma explicação robusta sobre a diversidade dos seres vivos sobre a Terra e as adaptações desses seres vivos aos ambientes onde eles vivem. Não há nenhum outro processo conhecido capaz de criar ordem na organização biológica se não o processo de seleção natural.

CC - Como o senhor avalia as discussões filosóficas e éticas a respeito das manipulações genéticas feitas hoje?

Acredito que, desde a "invenção" da ovelha Dolly e dos processos de criação de transgênicos, muitas pessoas, dentro da comunidade científica, vêm debatendo com propriedade o assunto. A questão é que para o debate filosófico ser produtivo tem de estar bem fundamentado do ponto de vista genético. É claro que há perigos em fazer transgenia [modificação genética nos organismos], é claro que existem interesses econômicos em colocar alimentos transgênicos nas mesas das pessoas, portanto, claro que as pesquisas devem ser reguladas. De qualquer maneira eu ainda vejo muita tempestade em copo d'água. Se olharmos um pouco para a história da ciência, perceberemos que, todas as vezes em que apareceu uma nova tecnologia, um impacto meio de ficção científica foi causado. Da mesma forma acontece com os transgênicos: em um primeiro instante, tem sempre a história de que eles vão resolver os problemas da humanidade; em um segundo momento, vira um demônio; e aos poucos, de alguma forma, se encontra no que podem ou não contribuir para diminuir a miséria da humanidade, seja na questão de alimentação, seja nas questões de saúde e da própria compreensão do lugar do homem na Natureza.

CC - Como a saúde do homem pode ser beneficiada com as pesquisas em biotecnologia?

Olha, na área da saúde houve muita euforia no início, mas agora já temos uma visão mais realista. Existe muita terapia genética que funciona, como, por exemplo, a de inserir genes que não existem dentro de uma pessoa doente. Mas muitas questões ainda estão na fase de testes, então é difícil predizer onde conseguiremos chegar. De todo modo, hoje já avançamos muito na capacidade de detectarmos doenças e a indústria farmacêutica, também, evoluiu demais com o conhecimento da estrutura química das moléculas e de como elas interagem umas com as outras, isso sem contar o conhecimento sobre os mecanismos das doenças e as maneiras de combater ou minimizar o efeito de algumas delas que cresceu absurdamente, nos últimos 50 anos.

CC - Apesar do destaque dado às pesquisas em transgenia atualmente, o homem, desde sempre, procurou reunir as melhores características de uma espécie em um único ser, não é mesmo?

Darwin, para explicar a seleção natural em "A Origem das Espécies", fala primeiro de seleção artificial. E justamente a seleção artificial de milho, de trigo, de cachorro criou uma porção de variedades dentro das espécies e essas variedades que a gente come e bebe - ou seja, tudo que a gente come em termos de grãos, de frutas, de carne de boi - é resultado de melhoramento animal e vegetal, de muitos séculos. Quer dizer, o homem descobriu um processo seletivo, antes de a gente saber das ideias de seleção natural, em que ele escolhia, na média, aquelas características que mais lhe interessavam em determinados animais ou plantas e fazia e com que eles cruzassem para conseguir cachorros cada vez mais fortes, ou mais velozes; ou um milho maior e mais tenro; ou uma vaca mais leiteira; ou uma vaca que vai parir touros para reprodução.  Todas essas especialidades, de uma maneira mais ou menos consciente, o homem foi construindo. Na verdade, a gente pode dizer que o homem por si só construiu uma porção de raças de animais e construiu uma porção de variedades de plantas.

CC - Voltando a Darwin, o que você considera importante ser dito sobre ele, neste ano em que comemoramos 200 anos de seu nascimento?

Acho que uma coisa importante a ser dita sobre Darwin é que ele não é um herói. E que como todos os cientistas, Darwin só conseguiu ver o que viu porque subiu em ombros de gigantes. Além dos "ombros gigantes", também tinha toda uma comunidade científica que de certa forma contribuía com os estudos. Darwin conversava e discutia muito com Wallace, que é codescobridor da teoria da evolução pela seleção natural; com Lyell, geólogo famoso da época; e com o John Hooker, um botânico amigo dele. Eu acredito que é importante não transformar Darwin em um herói, porque a Ciência é feita de seres humanos, e nunca é feita de um ser humano só. Darwin, também, teve de se apoiar em uma porção de tradições, ler muito, estudar muito. Então, é importante ressaltar que embora o darwinismo seja, hoje em dia, uma teoria robusta, ela é uma construção de muitos cientistas. Ou seja, Darwin talvez tenha sido iluminador do campo, na época, mas depois dele vieram muitos outros que exigiram que a teoria fosse refinada. Darwin é sem dúvida um personagem importante, talvez principal, mas nem de longe a única. É fundamental ressaltar esses aspectos para não mistificarmos a figura de Darwin e transformarmos a Ciência em uma coisa que parece que depende de um gênio isolado.