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Por dentro das ideias de Darwin

  • "Se pudéssemos rodar o tempo para trás, veríamos que os organismos existentes hoje teriam sido um único animal no passado. Humanos e chimpanzés, por exemplo, já foram um outro macaco no passado, que não era nem humano, nem chimpanzé".

Seleção natural, variação, ou o pouco discutido conceito de ancestralidade comum? Conheça as chaves conceituais da Teoria da Evolução

Variação, diversidade, seleção natural, seleção sexual e adaptação são conceitos que sempre vêm à tona quando se fala em Darwin e em suas teorias sobre a origem das espécies. Mas serão mesmo estes os conceitos fundamentais dos estudos de Darwin? Afinal de contas, o que é essencial entendermos se quisermos compreender as ideias do famoso naturalista britânico?

Primeiramente, é necessário ter em mente que Darwin, ao propor sua teoria sobre a evolução das espécies, rompeu com os modelos evolutivos que existiam até então. "Ele possibilitou uma mudança de paradigma: todos pensavam a Natureza como uma coisa estanque, estática, ou seja, acreditavam que todas as formas vivas haviam sido criadas por Deus de uma forma que não sofreria modificações", conta Reinaldo Alves de Brito, professor do Departamento de Genética e Evolução da Universidade Federal de São Carlos.

Os estudos de Darwin, no entanto, permitiram que houvesse formas de ver os organismos, sobretudo os da mesma espécie, como seres diferentes entre si. Isto é, uma espécie não seria representada por apenas um indivíduo, pois cada um dos indivíduos seria diferente, ou potencialmente diferente dos seus pares - por exemplo, a espécie canina não poderia, portanto, ser representada por um único cachorro. E o que isto traz de novo?

"Isto traz a variação pro centro da discussão da história da vida. A variação passa a ser a questão que deve ser reconhecida numa espécie: se existe variação entre os organismos, ela pode fazer com que determinados indivíduos tenham vantagens e outros não. Mudou-se, portanto, de um pensamento segundo o qual a variação era considerada apenas um erro do processo, para um pensamento em que ela passa a ser o que rege o processo de evolução", responde Alves de Brito.

Diante disso, uma outra questão se fez preponderante: se os organismos têm diferenças anatômicas (que podem, ou não, se configurar como vantajosas para a sobrevivência no meio ambiente), o que controla quais características serão passadas para as próximas gerações e quais serão descartadas pelo processo evolutivo? Foi esse questionamento que fez com que Darwin pensasse num mecanismo de seleção natural.

A proposta da seleção natural, "como o mecanismo de criação, ou design, da ordem e complexidade dos seres vivos", é a chave conceitual dos estudos de Darwin, segundo o professor José Fernando Fontanari, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), pesquisador de Física Estatística aplicada à área de Genética de Populações.

A seleção natural tem como princípio a adequação de uma característica de determinado ser vivo ao ambiente. Ou seja, como representantes de uma mesma espécie são diversos entre si, o meio se responsabilizaria por selecionar quais  características são vantajosas e quais não são. Assim, características benéficas se consolidam na população como caráter padrão, transmitido de geração em geração; já as que são desfavoráveis para um organismo não se perpetuam reprodutivamente.

"Por exemplo: imagine, em um passado distante, que uma população de ursos acaba de chegar pela primeira vez ao Pólo Norte, onde nenhum animal dessa espécie jamais conseguiu viver antes. Suponha que essa população encontre, além das condições inóspitas, recursos alimentares suficientes para se instalar ali por muitas gerações. Suponha também que não existam dois ursos exatamente iguais, que eles variem em termos de idade, sexo (gênero), altura, peso, espessura da pele, cor do pelo etc. Suponha, além disso, que nem todos os ursinhos que vêm ao mundo consigam sobreviver até a idade adulta da reprodução, por causa de certo limite de recursos, como o de alimentos e cuidado dos pais. Como a região explorada por essa espécie está coberta de neve, aqueles ursos que possuíssem determinadas variações aleatórias poderiam se sair melhor do que outros, dotados de variações diferentes: os indivíduos que possuíssem uma pele mais grossa e um pelo mais claro estariam variando nas direções favorecidas pelo ambiente, e portanto seriam fortes candidatos a vencer a luta pela sobrevivência", exemplifica Ricardo Waizbort, em seu trabalho "Plumas, cantos e armas: Darwin e a seleção sexual".

"Isto eliminou a necessidade de um designer externo para explicar a existência de entidades complexas na Natureza [já que a seleção natural é um processo sem selecionador; o meio em que habita a espécie faz o papel de selecionador]. Trata-se de um insight tão profundo a ponto do filósofo Daniel Dennett chamá-lo de ácido universal - capaz de literalmente desintegrar todas as noções metafísicas arraigadas em nossa civilização", afirma o professor Fontanari, da USP de São Carlos.

Para Fontanari, a segunda grande contribuição de Darwin foi a percepção da importância da seleção sexual, do "processo e resultado de escolhas, não necessariamente conscientes, dos parceiros reprodutivos, obviamente de uma mesma espécie", como explica Waizbort no artigo citado. Ou seja, a escolha das fêmeas, que selecionam o parceiro pelos caracteres sexuais secundários (aqueles que não estão diretamente relacionados com o ato da reprodução, por exemplo plumas e chifres), também se constituiria como um processo responsável pela perpetuação ou desaparecimento de uma característica, em determinada espécie. "É fantástico que ele tenha explorado essas ideias ao limite, mesmo desconhecendo os mecanismos corretos responsáveis pela variação e herança genética", enfatiza Fontanari.

A Ancestralidade Comum

"Embora Darwin seja normalmente reverenciado por ter sugerido o conceito de seleção natural, creio que o principal conceito necessário para entender a teoria evolutiva seja o de Ancestralidade Comum", afirma o geneticista Francisco Prosdocimi, do Laboratoire de Biologie et Genomique Structurales, de Strasbourg, na França.

Segundo Prosdocimi, esse conceito é normalmente mal entendido pelas pessoas, que ainda têm uma visão da evolução como uma grande escada dos seres, na qual os seres mais "primitivos" transformam-se em seres mais "evoluídos", e onde o homem é considerado normalmente "o mais evoluído" dos seres. "Esta é uma visão incorreta, que pode ser ainda hoje verificada nas mais diversas manifestações culturais", afirma.

"Para Darwin não há organismos mais ou menos evoluídos, todos os organismos existentes hoje no Planeta descendem de um suposto primeiro organismo que teria surgido na Terra há mais de 3,5 bilhões de anos. Se pudéssemos rodar o tempo para trás, veríamos que os organismos existentes hoje teriam sido um único animal no passado. Humanos e chimpanzés, por exemplo, já foram um outro macaco no passado, que não era nem humano, nem chimpanzé. E aí está o conceito de ancestralidade comum", explica o geneticista.

Segundo as teorias de Darwin, todos os organismos da Terra têm ancestrais comuns que podem ser mais antigos ou mais novos. "Eu e minha prima, por exemplo, temos ancestrais comuns que são nossos avós. Da mesma forma, duas espécies de organismos quaisquer, como a baleia e o gato, têm ancestrais comuns que podem estar mais próximos ou mais distantes no tempo. Já o gato e o tigre, que são dois animais da ordem Felidae - dos felinos - têm ancestrais comuns, avós evolutivos, mais recentes no tempo do que o sapo e o homem (um anfíbio e um primata). Isto significa que o ancestral dos felinos viveu num passado mais próximo que o ancestral entre anfíbios e primatas. Assim, quanto menos tempo tenha se passado desde um determinado ancestral e o presente, mais próximos dizemos que são os organismos", exemplifica Prosdocimi.

Humanos e chimpanzés, por exemplo, são muito mais próximos entre si do que, digamos, o cão e o cavalo. Estimativas dizem que humanos e chimpanzés teriam se divergido de um ancestral comum há cerca de 5 ou 7 milhões de anos, enquanto o tempo estimado para a divergência de cães e cavalos está em cerca de 75 milhões de anos atrás. De fato, qualquer pessoa que observasse com cuidado a anatomia desses animais poderia ter chegado a conclusão similar...Fim da reportagem

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