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O ser humano sabe selecionar seu alimento?

  • "É preciso compreender que a ciência de uma época futura será sempre mais desenvolvida do que a de uma era presente, assim como a ciência do presente é mais desenvolvida que a do passado".

No passado, a seleção natural de Darwin; hoje, a manipulação genética

Apesar do termo manipulação genética ainda assustar muita gente e ser, com razão, motivo de debate, o ato de selecionar artificialmente características de seres vivos não é algo novo. Há séculos o homem tem se intrometido nos cruzamentos animais e vegetais para tentar unir diferentes características num mesmo ser.

O professor Marco Del Lama, do Departamento de Genética e Evolução da Universidade Federal de São Carlos, lembra que o nosso "pão de cada dia" é a união de três espécies diferentes de trigo, feita pelos nossos antepassados.

Outro tipo de seleção artificial comumente feita pelo homem é o cruzamento de diferentes raças (variações encontradas numa determinada espécie) de um determinado animal para tentar unir características de todas, como em cachorros, por exemplo. No entanto, Del Lama explica que esse processo, realizado através do simples cruzamento, não garante que a característica desejada prevaleça na geração seguinte. Somente com a tecnologia de manipulação genética foi possível selecionar somente os genes que se deseja para a geração seguinte.

Basicamente, o processo de transgênese, como os cientistas chamam o resultado das técnicas de manipulação genética, é feito pela inserção de DNA (o material genético) de um organismo no genoma de outro. Segundo o geneticista Francisco Prosdocimi, a natureza tem gerado transgênicos desde o início dos tempos. "Se levarmos o conceito ao 'pé da letra', podemos considerar que toda virose que pegamos é um tipo de transgenia, na qual o DNA viral se integra ao nosso genoma. Assim, para cada gripe que pegamos nos transformamos em um novo transgênico."
 
O geneticista relata, também, que essa tecnologia tem dado grandes contribuições para a área da Medicina. A insulina, hormônio responsável pelo controle da glicemia, é produzida, por exemplo, através de organismos transgênicos. Uma sequência do DNA humano para expressão dessa proteína é inserida em bactérias e estas, por sua vez, produzem a insulina. "Assim os diabéticos não precisam mais ingerir uma insulina de porco, como ocorria antigamente, graças à tecnologia de transgenia", completa Prosdocimi.

Aplicando a tecnologia da transgênese ao melhoramento genético de plantações, tem-se conseguido um melhor aproveitamento da área plantada e também uma maior resistência da plantação a possíveis pragas. Apesar dos benefícios, Prosdocimi lembra a necessidade de se rotular esse tipo de alimento. "Não é provável que um organismo transgênico vá nos fazer algum mal místico, absurdo ou inesperado", pondera. "Mas há várias formas diferentes de realizar a transgênese, e algumas pessoas podem ser alérgicas a determinadas proteínas em especial que tenham sido adicionadas na planta transgênica em questão."

O fato das plantações com transgênicos serem mais resistentes a pragas tem trazido discussões também em relação ao impacto ambiental, devido às  mudanças na estrutura do ecossistema em que estão inseridas. Entretanto, Prosdocimi ressalta que esse impacto também se aplica a qualquer monocultura que esteja tomando o espaço de vegetações nativas. E, também, mesmo que determinadas culturas não sejam de uma espécie transgênica, elas sofreram contínuos processos de seleção artificial das melhores sementes. Logo, não representam mais a espécie natural.

Embora haja, ainda, grandes discussões sobre os impactos que essas plantações podem causar, o geneticista reconhece que, talvez, não fosse possível alimentar a população atual sem a existência de monoculturas. E, em uma prospecção para o futuro, talvez não seja possível alimentar a população humana sem a utilização de transgênicos. Ainda assim, é necessário que haja  opções, para que as pessoas tenham a liberdade de escolher consumir ou não os alimentos transgênicos.

Veja, também nesta edição de ClickCiência, qual é a avaliação do público consumidor em relação aos alimentos transgênicos. Fim da reportagem

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