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A teoria do gene egoísta

  • Livro do zoólogo queniano Richard Dawkins, publicado em 1976.

Por Francisco Prosdocimi

A teoria do gene egoísta é uma teoria científica de foco evolutivo, ultradarwiniano e genecêntrico. Ela tenta explicar a evolução biológica através de uma perspectiva gênica, remontando à origem da vida e tentando mostrar como certas moléculas replicadoras (ancestrais dos genes) poderiam ter evoluído de modo a formar as primeiras células e, a partir daí, todos os seres vivos existentes hoje. Vale notar que tal teoria toca também em questões filosóficas ao tentar explicar o problema profundo de nossa existência e sugerir que todo e qualquer organismo vivo consiste simplesmente em sofisticadas máquinas-de-sobrevivência, eficientemente moldadas pelo processo de evolução darwiniana para promover a replicação dos genes nelas contidos. Seremos nós apenas sacos envoltórios para permitir a replicação de nossos genes? Será que acordaremos e dormiremos e comeremos e faremos sexo apenas para permitir que os nossos genes passem para a próxima geração? Seremos mesmo controlados por eles?

 
O zoólogo Richard Dawkins, autor do livro "O gene egoísta" (originalmente publicado em Inglês, no ano de 1976), é tido como um dos maiores defensores das ideias evolucionistas e chega-se a dizer que seria mais darwiniano que o próprio Charles Darwin. Dawkins utiliza o darwinismo como uma arma imbatível com a qual ele ataca qualquer ideia que vá contra sua visão materialista, reducionista e não-mística da vida.


 
É importante notar que, ao contrário do que é sugerido pelo nome da teoria, Dawkins afirma que genes absolutamente não têm vontades próprias ou valores morais. O que acontece simplesmente é que aqueles genes que apresentam um comportamento que seria visto como egoísta pelos seres humanos - um tipo de antropomorfização de um comportamento de moléculas químicas - são os que se mantêm representados dentro dos genomas das espécies, ao longo do processo evolutivo, com o passar dos anos e milênios. Genes, de fato, são simplesmente polímeros químicos formados por um esqueleto de fósforo e carbono, associado a uma molécula de açúcar e bases nitrogenadas, encapsulados em duas fitas reversas e complementares; ou seja, genes são codificados em moléculas de DNA.

Da Evolução das moléculas às máquinas de sobrevivência

Voltemos à origem da vida para entender melhor a argumentação do zoólogo inglês. Num provável cenário prebiótico, aqui entendido como anterior ao surgimento dos primeiros organismos celulares, Dawkins sugere que já ocorria uma forma de seleção natural darwiniana onde as moléculas mais quimicamente estáveis perduravam - enquanto aquelas mais instáveis eram destruídas. A evolução desde sempre operou pela seleção daqueles que são mais adaptados ao meio e podemos dizer, genericamente, que uma molécula mais estável é mais adaptada a este universo em que vivemos.

 
Evolutivamente falando, para que consideremos que a vida tenha surgido aqui em nosso planeta Terra, somos obrigados a admitir o surgimento espontâneo de uma molécula que se autorreplicasse, a despeito de especulações quaisquer sobre a atmosfera primitiva existente ou a constituição química dessa molécula. É claro que esta hipótese é especulativa, mas os cientistas consideram que ela tenha um conteúdo de verdade mais próximo do que a afirmação "Deus criou a vida", que nada explica e donde decorrem outros problemas associados à aceitação de dogmas pela sociedade. Há ainda outras teorias científicas para explicar o início da vida, mas nenhuma ideia concorrente parece-me mais elegante e provável do que a ideia da molécula replicadora. Tal molécula replicadora teria, portanto, surgido através da união espontânea de suas peças químicas constituintes (seus monômeros), que estariam dispersos na sopa primordial. Para que esta molécula fosse precursora da vida, era exigido que ela tivesse uma única característica marcante: ela deveria ser estável o bastante para ser capaz de autocopiar antes que fosse destruída por processos químicos da atmosfera primitiva.

Assim, logo que essa molécula surgiu, ela começou a se copiar. E, assim, suas cópias também tinham a capacidade de realizar autocópia. A herança biológica e genética ali surgia pela primeira vez. Os filhos químicos se pareciam com seus pais. Considerando, portanto, que as moléculas eram capazes de se autocopiar antes que se desestabilizassem, rapidamente tal molécula replicadora deve ter espalhado cópias pelos mares primitivos, cópias e mais cópias. Uma previda surgia. Mas ainda restava um problema, a saber: o problema da limitação dos recursos. Depois de cópias e mais cópias, pode-se prever um momento no qual o número de tijolos moleculares para formar essas moléculas replicadoras acabaria. Não há um número infinito de moléculas no Universo ou na sopa primordial. Há um número finito. Assim, pode-se prever que em algum momento alcançássemos uma situação onde haveria uma grande população de réplicas desta primeira molécula espalhadas pelos mares primitivos, mas nenhum pedacinho mais livre no meio para que as moléculas pudessem copiar-se. E agora, o que fariam nossas moléculas? Morreriam?

Segundo Dawkins a resposta é não. Ele volta a Darwin para buscar o conceito de luta pela sobrevivência.

Mas antes de explicarmos a luta das moléculas precisamos notar que o processo de replicação dessas moléculas primitivas não era exatamente perfeito e, assim, erros eram cometidos e tais erros eram cumulativos, cópias erradas geravam cópias ainda mais erradas. Nenhum processo que ocorre no Universo é perfeito e as cópias erradas formavam mutantes da primeira molécula. Dessa forma, o caldo primitivo deve ter sido povoado por variedades de moléculas replicadoras de constituições químicas diferentes. E Dawkins então supõe racionalmente que aquelas moléculas que se replicavam mais rapidamente, que eram mais estáveis e que produziam menos cópias erradas acabaram por aumentar seu número em relação às outras; ou seja, elas estavam sendo selecionadas, estavam evoluindo! Esse processo de melhoramento das moléculas era também cumulativo. Moléculas que eram capazes de aumentar sua estabilidade e de diminuir a de seus rivais podiam ser consideradas mais adaptadas e mais eficientes. Era a seleção natural molecular acontecendo. E quando do término dos monômeros livres, algumas populações de moléculas talvez tenham descoberto uma forma de quebrar quimicamente moléculas de linhagens diferentes, de forma a destruí-las e a utilizar seus monômeros para fazer suas próprias cópias egoístas. Luta pela sobrevivência num ambiente molecular. Outras moléculas poderiam também ter descoberto como se proteger desses ataques, talvez formando uma parede de proteínas ou lípides ao redor de si. A partir deste momento, supõe-se, os replicadores começariam não só a existir, mas a constituir envoltórios protetores para ajudá-los na luta com outros, protegê-los das agruras do meio externo e garantir que sobrevivessem - teriam se transformado simplesmente em organismos celulares. Hoje, sabemos que os replicadores que sobreviveram foram aqueles que construíram as máquinas de sobrevivência mais eficazes para morarem; aqueles que foram menos aptos e não deixaram descendentes não podem ser encontrados em nenhum organismo vivo hoje. E embora as primeiras máquinas de sobrevivência provavelmente não passassem de um revestimento protetor, à medida que os replicadores foram evoluindo suas máquinas de sobrevivência foram tornando-se também maiores e mais complexas, sendo esse processo cumulativo e progressivo. Hoje, cerca de 4 bilhões de anos depois, qual seria o destino desses replicadores?

Dawkins explica: "Com certeza eles não morreram pois são antigos mestres na arte da sobrevivência. (...) Mas não os procure flutuando livremente no mar. Eles abandonaram essa liberdade há muito tempo. Agora eles apinham-se em colônias imensas, vivendo com segurança dentro de robôs desajeitados gigantescos, murados do mundo exterior, comunicando-se com ele por meio de vias indiretas e tortuosas, manipulando-o por controle remoto. Eles estão em mim e em você. Eles nos criaram, corpo e mente. E sua preservação é a razão última de nossa existência. Transformaram-se, esses replicadores. Agora eles recebem o nome de genes e nós [todos os organismos vivos] somos suas máquinas de sobrevivência." (Richard Dawkins, O gene egoísta.)


A clareza argumentativa e a linha de raciocínio elegante de Dawkins impressionam! O autor define como gene qualquer parte do material cromossômico que seja capaz de durar um número determinado de gerações de forma a servir como uma unidade de seleção natural. Como o próprio autor salienta, ele criou uma definição evolutiva de gene que faz com que não possa deixar de estar correto.

O gene imortal

A imortalidade do gene está relacionada ao fato de que ele não tem maior probabilidade de morrer quando tem um milhão de anos do que quando tem apenas mil, ou dez. De fato, quanto mais antigo, menor a chance de morrer, posto que já tenha se mostrado eficiente para garantir a vida de máquinas de sobrevivência eficazes. O gene passa de corpo em corpo através das gerações, manipulando as máquinas de sobrevivência através de instruções escritas em linguagem digital (A, C, T e G), abandonando tais corpos mortais na medida que eles vão ficando senis e duplicando-se em sua prole. As instruções dizem basicamente: copie-me, ou seja, viva e reproduza. A reprodução é o processo de cópia dos genes, é o processo que os mantém vivos ao longo dos tempos. Os indivíduos podem ser passageiros, mas os genes de Dawkins são para sempre. Eles não são destruídos pelo processo de recombinação da reprodução sexuada, eles simplesmente trocam de parceiros e seguem em frente. Muitos genes bons podem cair, por vezes, em má companhia e compartilhar um corpo com um outro gene mal adaptado, um gene que possa ser letal e matar sua máquina de sobrevivência ainda na infância. Tal gene bom será então destruído, mas aquela é apenas uma das máquinas de sobrevivência em que ele está inserido e várias réplicas dele estão difundidas no conjunto gênico populacional onde ele pode compartilhar máquinas de sobrevivência com outros genes bons, garantindo sua perpetuação.

É muito provável que o envelhecimento, por exemplo, seja simplesmente uma função do acúmulo de genes letais e semiletais de efeito tardio, que tenham conseguido passar pela seleção natural apenas porque seu efeito se manifesta depois da fase reprodutiva. É teoricamente possível que, caso fosse decretada uma lei que impedisse os seres humanos de se reproduzirem antes de uma certa idade - digamos, 40 anos -, a expectativa de vida da população aumentasse em algumas gerações. Desta forma, nossa espécie se veria livre de genes letais de efeitos razoavelmente tardios. Socialmente falando, é claro que este tipo de eugenia - seleção de certos genótipos para a reprodução em lugar de outros - é totalmente inaceitável: lembre-se de Hitler prevalecendo sua suposta raça superior e dizimando os judeus.


O gene egoísta, 30 anos depois

Por mais séria, clara e bem argumentada que seja a teoria do gene egoísta, entretanto, ela ainda não é muito bem aceita em círculos científicos estritos e acadêmicos, onde é considerada como excessivamente extrapolativa e de difícil confirmação prática. De fato, qualquer teoria que tente explicar a origem da vida será, necessariamente, extrapolativa, uma vez que ninguém pode voltar no tempo para saber exatamente o que aconteceu. A teoria dos replicadores, porém, tem sido levada a sério por alguns, que tentam de alguma forma conciliá-la com a teoria do mundo do RNA, hoje em dia tida como mais provável com relação à origem da vida. Muita coisa ainda é desconhecida nesta área de pesquisa e os avanços são sempre teóricos. Há evidências, entretanto, de elementos genéticos móveis, como as sequências Alu nos humanos, que tendem a se replicar dentro de um genoma e manter-se altamente replicadas ali dentro. Há elementos moleculares que foram identificados por pesquisadores como elementos genéticos "egoístas". É também conhecido um processo chamado de desvio meiótico, no qual gametas são produzidos contendo uma maior quantidade de determinados alelos gênicos que outros, evidenciando uma certa guerra entre variantes gênicas por estarem representadas em células gaméticas. Também em seu livro "O gene egoísta", Dawkins baseia-se nas ideias de seu orientador Trivers para descrever a chamada teoria do investimento parental. Esta teoria tem sido utilizada por muitos cientistas cognitivos para explicar um sem-número de observações sobre o comportamento social e sexual de espécies, inclusive o Homo sapiens.


Desde a publicação do gene egoísta, há mais de trinta anos, Dawkins vem cada vez mais se mostrando como um intelectual de primeira grandeza e defensor da razão e de ideais seculares. Ao longo destes anos, o autor publicou diversos outros livros que continuam a divulgar a ciência da evolução e também prezar pelo domínio da razão e da dúvida científica contra ideais dogmáticos, principalmente vindos de meios religiosos. Seu livro "Desvendando o arco-íris" apresenta a beleza e a poesia em se compreender a Ciência, contrariando aqueles que pensam que o conhecimento destrói a beleza do mundo. Já em livros como "O relojoeiro cego" e "Deus: um delírio", o intelectual inglês parte da disputa criacionismo versus evolucionismo para mostrar as deficiências e os problemas do pensamento dogmático normalmente associado aos domínios religiosos; e aproveita para evidenciar os grandes problemas e desventuras que a crença fundamentalista em qualquer religião tem trazido à humanidade desde seu berço. Sempre utilizando argumentos claros, ferozes e bem construídos, Dawkins pode ser considerado uma das vozes mais fortes da intelectualidade contemporânea.

 
Há três anos, em 2006,  assisti uma palestra de Richard Dawkins em Londres, na afamada London School of Economics. A palestra era sobre o lançamento da terceira edição da obra, que saía juntamente com a comemoração dos 30 anos de lançamento do "Gene Egoísta". Dawkins refletiu principalmente sobre o título da obra e disse que infelizmente haviam ocorrido muitas incompreensões e críticas vorazes à sua teoria, principalmente relacionadas à questão do egoísmo. Ele contou que, caso publicasse a obra neste momento, teria dado-lhe o nome de "O gene imortal", focando na imortalidade e não no antropomórfico egoísmo que lhe rendeu tanta dor de cabeça em se explicar depois: "é que muitos críticos lêem apenas o título do livro", disse desconsolado. Se tivessem de fato compreendido e atravessado a força da argumentação dawkiniana, provavelmente teriam concordado com o divulgador de Ciência inglês.

*Francisco Prosdocimi é geneticista do Laboratoire de Biologie et Genomique Structurales, de Strasbourg, na França.Fim da reportagem

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