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edição 17 - BioIndicadores

Na terra, na água, no ar

Na entrevista desta edição, Odete Rocha, pesquisadora e professora do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), revela as vantagens da utilização dos bioindicadores para o monitoramento da qualidade dos mais diversos ambientes naturais, faz um histórico da utilização da técnica e traça um panorama do atual cenário das pesquisas, destacando a sua importância científica, econômica e social.

 

CC - Quando e como os pesquisadores perceberam que poderiam usar seres vivos como indicadores da qualidade do meio ambiente?

 

O uso de bioindicadores para a avaliação da qualidade ambiental não é algo novo, tendo surgido com estudos desenvolvidos em diferentes áreas das Ciências Biológicas, desde meados do século passado. Estudos de Botânica e Geobotânica, por exemplo, evidenciaram que era possível inferir sobre características do solo com base na presença de determinado tipo de plantas, como aquelas que são endêmicas de solos serpentinos [solos que contêm elevadas concentrações de níquel, cromo e, algumas vezes, de cobre]. Assim, um botânico, ao se deparar com essas plantas em uma mancha de vegetação, suspeitará, com grande probabilidade de acerto, de que se trata de um solo serpentino, e essa informação pode levar à descoberta de uma jazida mineral valiosa. Paralelamente, em estudos dos ambientes aquáticos, desde o início do século XX pesquisadores aprenderam a avaliar a qualidade da água por meio da presença ou da ausência de espécies, algumas características de águas limpas, outras de águas poluídas.

 

CC - Quais as vantagens de se utilizar a técnica da bioindicação para o monitoramento dos sistemas biológicos?

 

A vantagem de se utilizar os bioindicadores é que eles permitem uma avaliação mais segura, mais confiável, da qualidade ambiental. As medidas de características físicas e químicas em um ambiente são informações pontuais, como se tirássemos uma fotografia instantânea, apenas um "flash" da situação. Acontece que a qualidade de um ambiente é uma somatória de várias características, de vários fatores; assim, mesmo que o grau de deterioração em cada um dos fatores não seja tão elevado, os seres vivos, ao responderem de uma forma integrada a todos eles, nos informam sobre o conjunto. Eles [os bioindicadores] são o testemunho, pois respondem ao efeito cumulativo de todas as alterações durante um período de tempo mais longo.  Por exemplo, os liquens são bons indicadores da poluição atmosférica. Essas plantas, que são formadas pela simbiose de uma alga e de um fungo, são muito sensíveis aos poluentes atmosféricos e vão desaparecendo à medida que aumenta a poluição do ar. Isto é fácil de ser comprovado comparando o número de liquens, aquelas crostas esverdeadas ou acinzentadas que vemos sobre os troncos, encontrados em árvores de uma rua do centro da cidade de São Paulo e em árvores de  uma cidade do interior, como Brotas ou São Carlos.

 

CC - Por que, hoje, se dá tanta atenção aos trabalhos com bioindicadores? A que você credita o impulso nas pesquisas?

 

Porque os bioindicadores se tornaram uma ferramenta eficiente para o monitoramento de uma variedade enorme de mudanças que estão ocorrendo rapidamente na face do Planeta. Com os bioindicadores podemos avaliar variados tipos de poluição e contaminação, desde aquelas restritas a pequenas áreas, até as mudanças globais, como por exemplo a destruição da camada de ozônio e o aquecimento global da Terra. Assim, percebeu-se recentemente que os bioindicadores possuem aplicações práticas, são alternativas mais eficazes e mais baratas do que sofisticadas análises físicas e químicas, muito mais dispendiosas. Até o início deste século, o número de espécies conhecidas como bioindicadores era pequeno, restrito a umas poucas dentro de cada grupo taxonômico. Atualmente, as pesquisas estão aceleradas e a prospecção de espécies indicadoras se tornou um tema prioritário.

 

CC- Como você avalia o atual cenário das pesquisas nessa área? O que há de mais novo sendo descoberto?

 

O desenvolvimento científico e tecnológico trouxe, sem dúvida, grandes avanços para a Humanidade, mas também muitos problemas ambientais. Em conseqüência tornou-se necessário monitorar constantemente os ambientes buscando detectar, o mais cedo possível, as modificações que poderão levar à perda das funções e dos serviços prestados ao Homem pelos ecossistemas naturais. O atual cenário é de urgência em relação às pesquisas que nos informem sobre as espécies presentes e que são indicadoras da saúde dos ambientes quando se encontram íntegros, naturais, e aquelas cuja presença ou crescimento descontrolado nos informa sobre as alterações prejudiciais. Uma área de pesquisa relativamente nova é a Ecotoxicologia, na qual são utilizadas espécies como biossensores. A sensibilidade de algumas espécies versus a tolerância de outras a diferentes condições de toxicidade é testada em laboratório e em campo visando selecionar aquelas mais adequadas ao monitoramento de compostos, resíduos, ou ambientes que apresentem toxicidade a todo o conjunto de seres vivos, mas principalmente ao ser humano.

 

CC - O que você, particularmente, tem pesquisado? Quais são os principais resultados?

 

Dentro de nossos estudos sobre a biodiversidade em ecossistemas de água doce, como rios, lagos e represas, temos estudado quais seriam as espécies de plantas e de animais que são indicadores de poluição e degradação da qualidade da água. Acoplamos as observações no campo aos estudos ecotoxicológicos em laboratório, para descobrir novas espécies indicadoras que nos permitam diagnosticar os problemas ambientais e também fazer predições de tendências de modificação dos mesmos. Nessa linha, desenvolvemos estudos com cianobactérias, microrganismos produtores de compostos tóxicos [as cianotoxinas], que apresentam riscos à saúde humana. Temos, também, trabalhado com as espécies invasoras em ambientes aquáticos. A invasão por espécies exóticas é por si só uma indicação de ambientes perturbados. Assim, lagos e represas em processo de eutrofização [enriquecimento por nutrientes] são mais vulneráveis à invasão pelas espécies exóticas, como é o caso da invasão recente de moluscos exóticos [mexilhão dourado e caramujo espiralado], na bacia do Paraná e rio Tietê.

 

CC - Qual a importância econômica, social e científica do trabalho de monitoramento dos sistemas biológicos, através de bioindicadores?

 

Cientificamente falando, hoje, por exemplo, diagnostica-se a saúde dos ecossistemas marinhos utilizando como bioindicadores os corais que estão sofrendo branqueamento por perderem suas algas simbiontes, provavelmente em decorrência de mudanças climáticas globais; monitora-se a poluição em ambientes terrestres utilizando-se plantas e liquens; avalia-se a qualidade da água pela presença de algas ou de macrófitas aquáticas [plantas herbáceas que crescem na água], ou ainda pelo desaparecimento dos peixes. E todos os aspectos relacionados com meio ambiente têm profundas repercussões sociais e econômicas. Se considerarmos a perda da qualidade da água, vital para o abastecimento da população humana, e também sua consequência sobre a biota aquática [algas, crustáceos, peixes], claramente entendemos a importância social e econômica dos estudos com bioindicadores. Os gastos com saúde publica em decorrência de problemas ambientais, os prejuízos econômicos, com perdas na agricultura, são da ordem de bilhões de dólares em diversos países, incluindo o Brasil. Os bioindicadores são importantes tanto para o alerta precoce quanto para o monitoramento das respostas do ambiente que indicam os esforços  que deverão ser empreendidos para a restauração do Planeta.Fim da reportagem