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Chuvas provocam deslizamentos, soterramentos e mortes

Mudanças climáticas ou irresponsabilidade do poder público?

 

Enquanto a delegação brasileira de 700 pessoas participa da COP15 em Copenhague, chuvas intensas, por vezes acompanhadas de ventos fortes, acontecem no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e Goiás.


O que assistimos hoje é novidade? Há quantas décadas os temporais no Brasil causam deslizamentos, soterramentos e mortes? Há décadas assistimos o crescimento desordenado de cidades e a proliferação de favelas em áreas frágeis, de solos rasos e de declive acentuado. Há décadas a agricultura praticada no Brasil copia modelos de países de clima temperado, onde as chuvas não são intensas e concentradas em um período do ano, como acontece aqui.


As chuvas estão atípicas


Para Ana Maria Heuminski de Ávila, diretora do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade de Campinas (Unicamp), “a chuva que caiu no Rio Grande do Sul na primeira semana de dezembro é atípica, foi acima da média”. Ana Ávila comenta que em Bagé, no sudoeste do estado e a 60 km da fronteira com o Uruguai, as chuvas registradas foram muito intensas. “Normalmente, o rio Camaquã (que passa na região) enche e em seguida vai espraiando. Dessa vez, os alagamentos foram muito rápidos, foi muita água”.


A meteorologista Ana Ávila explica que 2009 foi um ano de El Niño, fenômeno que ocorre irregularmente em intervalos de dois a sete anos. No El Niño, a água no sul do Oceano Pacífico fica mais quente e provoca chuvas excepcionais na costa oeste da América do Sul.  “É normal aumentar a incidência de chuvas no Rio Grande do Sul, em ano de El Niño, pois forma-se um centro de baixa pressão no noroeste do estado, denominado complexo convectivo de mesoescala ou CCM”. Ana explica que os CCM são sistemas que possuem uma longa duração, são noturnos e, normalmente, contêm chuvas torrenciais, ventos, granizo, relâmpagos e, às vezes, até tornados. Mas em 2009 foi diferente. Segundo Ana, “o CCM se deslocou e se associou a uma frente fria, formando tempestades. Veio pelo oeste e atingiu o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Mas ao Sul, na fronteira com o Uruguai, formou-se outro CCM. O Rio Grande do Sul ficou cercado”.


Em São Paulo, o volume acumulado de chuvas também é muito acima da média. “Tivemos chuva muito forte em São Paulo, onde as chuvas também estão mais intensas; mas aqui o fenômeno é agravado porque são formadas ilhas de calor”, comenta Ana Ávila. Ilha de calor é uma anomalia do clima que ocorre quando a temperatura em determinadas áreas dos centros urbanos fica muito maior do que a temperatura nas áreas periféricas. Em São Paulo, já chegou a ser registrada uma diferença de 10 graus Celsius entre a temperatura medida no centro e na periferia da cidade. Com temperatura mais alta, formam-se mais chuvas e com mais frequência.


Cidades e áreas rurais não adotam medidas para evitar a enxurrada


Em regiões tropicais e subtropicais as chuvas tendem a ter um volume maior de água e a ocorrer de forma mais freqüente do que em regiões de clima temperado. Nessas regiões, numa área de vegetação natural, os solos adquiriram com o tempo capacidade para absorver rapidamente a água dessas chuvas. Mas nas áreas ocupadas pelo homem, formam-se enxurradas, que arrastam árvores, carros, pontes e casas, porque o solo fica cada vez mais impermeabilizado. Práticas agrícolas inadequadas nas áreas rurais e asfalto nas cidades impedem que a água infiltre naturalmente no solo.


Não estamos preparados para enfrentar chuvas intensas. Só em Angra dos Reis – RJ foram registradas 45 mortes em decorrência do deslizamento de terras ocasionado pelas chuvas do último dia primeiro de janeiro de 2010.


Ana Ávila salienta: “Todos os anos, temos chuvas fortes com mortes nas cidades e nas áreas rurais. A chuva está ficando mais intensa, mas não acho que é só por causa das chuvas que esses desastres acontecem”.


Muitas são as técnicas conhecidas para evitar a formação de enxurradas em áreas rurais. José Eloir Denardin, pesquisador da Embrapa Trigo em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, afirma que “a compactação do solo, associada à aplicação de corretivos e de fertilizantes na superfície, têm mantido cerca de 90% do sistema radicular das plantas nos primeiros cinco centímetros de profundidade”. Como as raízes das plantas favorecem a formação de espaços por onde a água circula, os efeitos da enxurrada se aceleram e se agravam.


Denardin comenta que “o conhecimento e a tecnologia para o desenvolvimento da agricultura conservacionista (que evita a erosão e a formação de enxurradas), nas regiões tropical e subtropical do Brasil, não está disponível em outro país”. E acrescenta, “durante anos, importamos tecnologias de regiões de clima temperado e adotamos práticas que não são adequadas para os nossos solos”. Segundo Denardin, se o agricultor “não der ao solo matéria orgânica em qualidade, quantidade e frequência que os organismos do solo precisam, não adianta adubar. Vai ocorrer erosão. Solo e adubo irão embora com a enxurrada e causarão assoreamento nos rios, que transbordarão com as fortes chuvas”.


Nas cidades, é necessário promover a reciclagem de lixo, impedir o crescimento desordenado, aumentar o número de parques e de jardins, fazer obras de saneamento, promover o ordenamento territorial sustentável. No campo, é necessário adotar práticas agrícolas adequadas ao ambiente que temos no Brasil. Se agirmos de modo mais efetivo, talvez daqui a algumas décadas estejamos mais bem preparados para enfrentar as chuvas que se tornam cada vez mais intensas. Mas se ficarmos apenas nas discussões sobre redução de emissão de gases de efeito estufa, mercado de carbono, fundos de financiamento de ações contra as mudanças climáticas, e não adotarmos as medidas necessárias e conhecidas, a enxurrada continuará causando mortes e prejuízos.

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Maria Leonor Assad
    São Carlos, SP, Brazil
  • Engenheira Agronôma pela Universidade Federal de Viçosa, Doutora em Ciência do Solo pela Université de Montpellier II, Professora do Departamento de Recursos Naturais e Proteção Ambiental da Universidade Federal de São Carlos – Campus de Araras. Atua nos seguintes temas: aptidão agrícola de terras, biofuncionamento do solo, fertilizantes alternativos, relação solo e ambiente, integração de dados ambientais e zoneamento pedoclimático.



  • e-mail: leonorrcla@gmail.com