reportagem
  • fonte pequena
  • fonte pequena
  • fonte pequena

Saúde, apesar da precariedade no atendimento ainda encontrada no Brasil, também tem destaques na produção de conhecimento

 

Hospital em Bauru, no interior do Estado de São Paulo, é referência internacional no tratamento da fissura lábio-palatal

 

 

 

  • José Alberto de Souza Freitas, conhecido como "Tio Gastão", dirigente do Centrinho há mais de 40 anos
Aaulo.

Olhar para questões de saúde pública no Brasil é, com certeza, se deparar com vários desafios típicos de um país que ainda não consegue oferecer atendimento de qualidade a toda sua população. Discutir o tema é cair, quase sempre, no discurso pronto da falta, seja de profissionais competentes, equipamentos ou estrutura física. Por outro lado, destacar exemplos de grande desenvolvimento dessa área no País não é tarefa difícil.

 

Entre as instituições que realizam, além de pesquisa de ponta, um atendimento condizente com o avanço dessas pesquisas, está o Centrinho. Localizado na cidade de Bauru, no interior do Estado de São Paulo, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, nome oficial do Centrinho, é destaque em pesquisa e atendimento à população não só em âmbito nacional, mas também internacionalmente. Atualmente, são atendidos no Hospital cerca de 5 mil pacientes por mês, com 600 cirurgias na área de anomalias craniofaciais e 10 na área auditiva.

 

Segundo a professora Maria Inês Pegoraro, presidente da Comissão de Pesquisa do Centrinho, o grande diferencial oferecido pelo Hospital é o conjunto de profissionais de diferentes áreas concentrados em um único local. Pegoraro explica que unir todos esses profissionais é permitir um tratamento completo ao paciente, desde as cirurgias até os tratamentos fonoaudiológicos e psicológicos, sem que ele tenha que buscar outras instituições.

 

João Henrique Nogueira, diretor administrativo do Hospital, explica justamente que o tratamento dos pacientes com fissura lábio-palatal - anomalia decorrente de má formação do lábio e do palato (céu da boca) - vai além da cirurgia de correção. Esse cuidado acompanha todo o desenvolvimento do indivíduo, para que o problema não venha a prejudicar sua formação dentária, relação intermaxilar (mordida), sua fala e sua audição, além do acompanhamento psicológico.

 

Atualmente, é possível detectar a má formação ainda durante a gestação do bebê. Assim, a família já recebe atenção dos psicólogos e da assistência social do Hospital, para conhecer e se integrar ao tratamento que será realizado com a criança. "O que nós estamos fazendo aqui é uma busca pra trazer a mãe antes do filho nascer, para ela conhecer o ambiente hospitalar em que ele vai se recebido, saber as possibilidades de cirurgia que ele vai ter, ter uma ideia de como vai ser a reabilitação do bebê. Saber que o filho tem condições de ser reabilitado é importante para a aceitação nesse período tão delicado que é a gravidez", explica Nogueira.

 

O diretor conta que, quando começaram as pesquisas e tratamentos para indivíduos com fissuras de lábio e palato, o maior desafio era saber se os procedimentos que estavam sendo feitos estavam corretos ou não. "Quando você faz uma cirurgia numa criança, você só vai saber se o resultado foi bom ou não a partir do momento em que ela estiver com 5 ou 6 anos. E a conclusão disso acontece ainda mais para a frente, com 18 anos." Atualmente, as condições são outras. Nogueira destaca que, com o grande volume de pacientes que o Centrinho atende, foi possível, ao longo dos anos, desenvolver as técnicas adotadas.

 

Com as cirurgias sendo feitas ainda na fase inicial da vida dos pacientes, Pegoraro enfatiza a necessidade de aplicação de técnicas bastante especificas, de modo que não causem nenhum tipo de sequela. No entanto, mesmo com esse cuidado, o Hospital também recebe pessoas operadas em outros serviços, de lugares distantes, que já desenvolveram sequelas e também precisam ser tratadas.

 

Um fator que contribuiu para o desenvolvimento não só das técnicas, mas também dos profissionais, foi a chegada da pós-graduação, em 1996. Para Inge Elly Kiemle Trindade, presidente da Comissão de Pós-Graduação, a criação dos cursos de mestrado e doutorado em Ciências da Reabilitação, além de contribuir para a sistematização das pesquisas na Instituição e formar pesquisadores, exige um aprimoramento constante dos orientadores.

 

Voltada para fissuras orofaciais (fissura labial com ou sem fenda palatina associada e má formação da região craniofacial), atualmente a pós-graduação desenvolve sete grandes linhas de pesquisa no Hospital: abordagem clínica e instrumental dos distúrbios da comunicação; aspectos psicossociais e educacionais da reabilitação; diagnóstico, intervenções e cuidados especiais ao portador de fissura; funções e disfunções do sistema estomatognático (conjunto de estruturas bucais que desenvolvem funções comuns relacionadas ao uso da mandibula) e das vias aéreas superiores; morfologia, crescimento e desenvolvimento craniofacial; prevenção e genética; e reabilitação das deformidades dento-maxilo-faciais.

 

História

 

Através de um projeto realizado na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) ainda em 1967, um grupo de pesquisadores buscava analisar a incidência na região de pacientes com fissura lábio-palatal. No entanto, levantar esses dados não parecia ser suficiente: então, a partir da pesquisa, buscou-se o tratamento desses pacientes.

 

Em 1976, o Centrinho se desvinculou da FOB e passou a ser um órgão complementar da USP. A partir daí, a equipe de professores coordenada por José Alberto de Souza Freitas (conhecido como "Tio Gastão") começou a trazer para Bauru muitas especialidades ligadas à área do tratamento. Dirigente do Centrinho há mais de 40 anos e também professor titular da FOB, Freitas é a figura principal ligada ao desenvolvimento do Hospital. Em entrevista à Assessoria de Comunicação da USP, o professor explicou como o Centrinho sempre foi uma meta em sua vida e que seu desenvolvimento se deu principalmente pela sensibilização a partir da necessidade dos pacientes.

 

Com essa possibilidade de oferecer um conjunto de especialidades para o atendimento, o Hospital cresce e, em 1987, chama a atenção do Ministério da Saúde. Os 20 anos de pesquisa permitiram que se desenvolvesse um protocolo de tratamento. Esse protocolo prevê justamente quais cirurgias e tratamentos o paciente precisa fazer durante as diversas fases de seu crescimento.
 
A partir daí, já como referência nacional, o volume de pacientes do Centrinho passa a aumentar, exigindo dos profissionais a otimização de diversos processos. O diretor administrativo do Hospital explica que pelo fato de muitos pacientes serem de fora da cidade, era difícil a permanência em Bauru por longos períodos, ou que tivessem de voltar muitas vezes ao Hospital. Assim, para que o tratamento não fosse prejudicado, os laboratórios foram ampliados e se investiu em pesquisas para tornas os processos mais rápidos.

 

Com a criação da pós-graduação em 1996, as pesquisas do Centrinho passaram a ser realizadas dentro de padrões internacionais. A publicação em diversos periódicos fez com que o trabalho ganhasse visibilidade. Como consequência, em 2001 a Organização Mundial de Saúde (OMS) colocou o Hospital como referência em sua área de atuação - saúde auditiva, má formação craniofacial e fissuras lábio-palatais.

 

Já em 2005, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais foi aprovado como um Hospital Universitário de Ensino, com credenciamento junto à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que passa a monitorar a qualidade das atividades de ensino e pesquisa. Nogueira destaca que as respostas têm sido satisfatórias. "Em uma avaliação feita neste ano pela própria Secretaria do Estado, junto aos usuários dos hospitais do Estado de São Paulo, o Centrinho ficou entre os 10 primeiros. É um prêmio que muito nos orgulha."

Desafios

 

O diretor administrativo do Hospital lembra, no entanto, que o crescimento do Centrinho trouxe alguns desafios para a gestão. O aumento de pacientes e funcionários faz com que seja necessária uma grande organização entre todas as áreas. "Eu comparo um grande hospital como o nosso a uma grande cidade. Você tem muitos problemas que um centro menor não tem, inclusive no controle de qualidade de sua reabilitação. No nosso centro nós estamos trabalhando para ter esse controle mais rigoroso, preocupados com os resultados para os pacientes que estão saindo daqui, nosso principal alvo de atenção."
 
Pegoraro conta que outro desafio para o Hospital é fazer com que esses pacientes que vêm de todos os cantos do Brasil não faltem a nenhuma etapa do tratamento. Para resolver este e outros problemas, a área de serviço social também se tornou de grande importância para o Centrinho, organizando um difícil projeto de logística. Os pacientes de um mesmo município, por exemplo, têm consultas marcadas para um mesmo dia, para que as prefeituras ou o Estado possam fornecer o transporte até Bauru.

 

Perspectivas

 

A presidente da Comissão de Pós-Graduação afirma que o Centrinho está constantemente buscando obter o melhor tratamento com o melhor custo-benefício. Assim, foi montada, por exemplo, uma parceria entre centros europeus e o Hospital, para investigar de forma conjunta os resultados da cirurgia de tratamento da fissura lábio-palatal. Outra área apontada como foco de pesquisas é a prevenção. Nogueira explica que alguns tratamentos já têm resultado comprovado, como, por exemplo, o uso do ácido fólico durante a gravidez e até mesmo antes, o que previne má formações.

 

Uma área nova de pesquisa também está surgindo. O diretor administrativo conta que há uma proposta de programa para diagnóstico de cardiopatias na área de pediatria. O estudo parte do pressuposto de que com a má formação da face pode haver também má formação de outros órgãos. "As doenças cardíacas congênitas têm preocupado muito algumas áreas do Hospital. Às vezes elas ficam obscuras ao longo do tempo e, de repente, você tem uma morte súbita. Isto nós vamos buscar também para o futuro, observar e identificar a prevalência dos nossos pacientes com esse tipo de problema."

 

  • Novo prédio que deve ser inaugurado em 2010
Aaulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por fim, no ano que vem o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais deve inaugurar um prédio novo com 21 mil m², onde se espera oferecer um modelo de pesquisa, atendimento e ensino com uma qualidade ainda melhor.Fim da reportagem

lista de reportagem