reportagem
  • fonte pequena
  • fonte pequena
  • fonte pequena

Em Educação, muitos pesquisadores ainda hoje se descobrem nos esfarrapados do mundo, e com eles sofrem e lutam

 

  • Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife em 1921

 

Obra de Paulo Freire tem influência no conhecimento produzido atualmente mas, na opinião de especialistas, está longe de nortear as políticas educacionais

 

 

Considerado um dos grandes pensadores na área de Educação em todo o mundo, Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife em 1921 e, ao longo de toda a vida, dedicou seu trabalho à alfabetização na educação popular. Por esse motivo, foi indicado ao cargo de diretor do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social no Estado de Pernambuco, em 1946.

 

Em 1961, tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife. As primeiras experiências de Freire e sua equipe chamaram muito a atenção ao conseguirem alfabetizar 300 cortadores de cana em apenas 45 dias. O esforço seria multiplicado em 20 mil novos núcleos, chamados de "Círculos de Cultura", não fosse o golpe de 1964, que acabou com o projeto. Exilado, Freire chegou a ser convidado para ser professor visitante na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, onde permaneceu por cerca de um ano. Posteriormente, assumiu o cargo de consultor educacional no Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, na Suíça. De volta ao Brasil, em 1980, Paulo Freire continuou seus trabalhos ligados à alfabetização, chegando a ocupar o cargo de Secretário Municipal de Educação em São Paulo, de 1989 a 1991.

 

Edna Brennand, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), explica que a pedagogia construída por Paulo Freire se baseia no processo de agir-refletir, uma forma privilegiada de construção do conhecimento através do uso da informação e do uso do diálogo como mediação interativa. Com essa visão dialógica da educação, Freire acreditava que o ato de conhecer e de pensar está diretamente ligado à relação com o outro.

 

Ângela Antunes, diretora pedagógica do Instituto Paulo Freire (IPF), explica que através dessa interação pelo diálogo o educador pernambucano faz um contraponto à educação como transmissão de conteúdo. "Para Paulo Freire, o conhecimento é construído de forma integradora e interativa. Não é algo pronto a ser apenas apropriado ou socializado, como sustenta a pedagogia dos conteúdos. Conhecer é descobrir e construir, e não copiar."

 

Essa visão da educação parte do pressuposto de que o conhecimento não pode ser simplesmente depositado no outro, impondo a verdade. Brennand explica que essa educação dialógica tem um grande papel emancipatório na medida em que privilegia o processo de autoconstrução dos sujeitos. Segunda a pesquisadora, enquanto a pedagogia conservadora reduz o aluno, a pedagogia dialógica deu dignidade a ele, respeitando, educando e colocando o professor ao seu lado, com a tarefa de orientar e dirigir o processo educativo.

 

Antunes acrescenta que a obra de Paulo Freire está permeada pela ideia de que educar é conhecer, ler o mundo para então transformá-lo. Assim, para Freire, o cotidiano do sujeito deve ser o gerador de temas para o estabelecimento do processo de ensino. Antunes explica também que a educação freiriana visa a libertação, a transformação radical da realidade, para melhorá-la, torná-la mais humana, para permitir que homens e mulheres sejam reconhecidos como sujeitos da sua história, e não como objetos.

 

Nesse sentido, para Brennand, o método de Paulo Freire não inova apenas como um sistema de ensino, mas sim como uma problematização da realidade e um enfrentamento das tensões advindas dessa realidade. "Em Freire, a essência do contexto educacional consiste em desenvolver o diálogo como a base da experiência referencial em que as situações sociais se desenvolvem, marcando a condição de ser e estar no mundo, isto é, o agir e o refletir."

 

A obra de Freire é ainda extremamente atual, ao considerar a Pedagogia como ciência essencialmente transversal e a escola como algo que vai muito além das paredes da sala de aula. Antunes lembra do "Círculo da Cultura", criado por Paulo Freire como expressão dessa Pedagogia que ele não reduzia à noção simplista de aula. "Na sociedade do conhecimento de hoje, isto é muito mais verdadeiro, já que o espaço escolar é muito maior do que a escola."

 

Não é de hoje que outros espaços de informação e formação alargam a noção de escola. No entanto, as tecnologias têm aumentado ainda mais as relações do sujeito com o mundo. Se por um lado torna-se mais fácil a aquisição de informação, por outro a escola ganha um difícil papel, não mais de informar, mas sim de gerenciar e contextualizar esse conhecimento. "Hoje, é necessária uma educação que não ignore os conteúdos simbólicos e os impactos sociais trazidos pela cibercultura. Imersos na realidade da convergência tecnológica, Paulo Freire nos desafia a sermos capazes de lidar com os desafios do presente de forma autônoma e dialogada", conclui Brennand.

 

Influências

 

Apesar das grandes contribuições de Freire, a professora da UFPB afirma que são poucos os estudos que mostram a utilização do pensamento de Paulo Freire na alfabetização de crianças ou como fundamento de políticas educativas no Brasil. "Há experiências pontuais em Estados e municípios, é verdade, mas não consigo ver o pensamento freriano como fonte de inspiração da política educacional brasileira."

 

Brennand ratifica esse cenário, lembrando que o Ministério da Educação ainda trabalha com a perspectiva da centralização das políticas, contrariando as formulações de Freire sobre a necessidade de democratização da educação. Para a pesquisadora, no Brasil não podemos falar de educação, mas sim "educações", no plural, devido às diferentes realidades encontradas no País. "A escola pública continua sucateada, ao tempo que as escolas privadas alcançam altos patamares de modernização", complementa. Ou seja, embora seja possível constatar aumento de matrículas em universidades, por exemplo, a educação no País ainda é marcada pela grande desigualdade de acesso aos bens culturais.

 

Brennand reforça que Paulo Freire trabalhava a possibilidade de emergência de novas formas de fazer educação e com a eminência da aprendizagem cooperativa. Nessa perspectiva, seria necessária uma renovação e a adequação das habilidades e competências dos diversos agentes da educação. "Paulo Freire se indignaria com certeza em ver a Bolsa-Família como moeda de acesso à escola. Não é esta a educação que ele sonhou, ele sempre foi esperançoso por mudanças radicais."

 

Em contrapartida, a diretora pedagógica do IPF lembra que, no final da década de 1990, o Estado do Rio Grande do Sul foi um exemplo importante do uso da metodologia freiriana ao lançar a "Escola Democrática e Popular", através da Constituinte Escolar - espaço democrático de construção do projeto pedagógico e administrativo formado por todos os membros da comunidade escolar. Segundo Antunes, esse movimente tinha como pressuposto a educação como um direito de todos os cidadãos, a participação popular enquanto método de gestão das políticas públicas e a dialogicidade enquanto princípio ético-existencial de um projeto humanista e solidário.

 

Outros exemplos seriam também o Orçamento Participativo e a Escola Cidadã, ambos sob influência do pensamento de Paulo Freire. Entre os princípios da Escola Cidadã estão, por exemplo, partir das necessidades dos alunos e das comunidades, do conhecimento de cada um no processo de aprendizagem. Outra característica é considerar a educação como produção e não como transmissão e acumulação de conhecimentos, entendendo que se aprende ao ensinar e ensina-se ao aprender.

 

Apesar de apresentar esse quadro de iniciativas isoladas, Antunes considera o pensamento de Freire ainda mais válido hoje do que no passado. Freire, contudo, não escapou das críticas ao seu pensamento vanguardista. Ele foi acusado de não dar valor aos conteúdos e não ser diretivo. Para Antunes, no entanto, as críticas não procedem. "Seu pensamento estava fortemente orientado por um projeto político-pedagógico cujo conteúdo era a libertação."

 

Apesar disso, a diretora pedagógica do IPF afirma que dar continuidade a Freire é também criticá-lo. Para ela, Paulo Freire não deve ser um "totem" que não se pode tocar, mas se deve adorar. "Nada menos freiriano do que essa ideia. Por isso não devemos repetir Freire, mas reinventá-lo, como ele mesmo dizia."

 

Nas palavras de Freire, em "Pedagogia do Oprimido", a continuidade de seu trabalho é deixada como uma tarefa "aos esfarrapados do mundo, e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam".Fim da reportagem

lista de reportagem