reportagem
  • fonte pequena
  • fonte pequena
  • fonte pequena

Em tempos perigosos para o Planeta, Brasil se destaca na pesquisa com energias renováveis

 

  • Pesquisas vão permitir o aumento da produção de álcool sem o aumento de áreas plantadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tecnologias voltadas ao aproveitamento de resíduos podem minimizar o impacto de áreas plantadas com soja e, principalmente, cana-de-açúcar


 

 

Em tempos perigosos para o planeta Terra e de muita preocupação com o ambiente, o Brasil é destaque no desenvolvimento de pesquisas sobre fontes renováveis de energia. A substituição de matrizes energéticas de origem fóssil - estudada pelo País desde a década de 1970, com o programa Pró-Álcool - tem ganhado cada vez mais força no cenário mundial. Esse destaque brasileiro é visível ao compararmos a tecnologia utilizada, por exemplo, para a produção do etanol no Brasil, que permite um rendimento de 1 para 8 - ou seja, cada unidade de energia utilizada no processo de produção do etanol resulta em 8 do combustível -, com  países como os EUA, que tem um rendimento de 1 para 1,3, e França, com rendimento de 1 para 1,5. O Brasil também tem desenvolvido largamente processos para obtenção do biodiesel, combustível obtido a partir da reação química de óleos ou gorduras, de origem animal ou vegetal, com álcool.

 

No entanto, a produção em larga escala desses combustíveis tem aumentado a quantidade de áreas para o plantio de soja e, principalmente, de cana-de-açúcar. Além disso, apesar de serem considerados combustíveis mais limpos, a produção de resíduos é parte inerente ao processo de obtenção de biocombustíveis. Para tentar minimizar esses problemas, surgiram as pesquisas dos chamados bicombustíveis de segunda geração, que levam em consideração a sustentabilidade ambiental e econômica.

 

Trata-se da utilização de resíduos agrícolas - biomassa - por meio da conversão em gás e posterior liquefação do gás em etanol, para produção do álcool combustível. No caso do biodiesel, a pasta de biomassa passa por um processo de catálise para acelerar o processo de separação de seus compostos que, posteriormente combinados, podem formar os mesmos compostos químicos obtidos do processamento do petróleo. Através dessas tecnologias, é possível aumentar a escala de produção sem o aumento de áreas plantadas. 
  
Juliana Vaz Bevilaqua, coordenadora de Gestão Tecnológica da Petrobras, estima que a produção de etanol no Brasil deve triplicar até 2020, passando de cerca 25 milhões de metros cúbicos para 70 milhões. No entanto, segundo Bevilaqua, não será necessário triplicar a área de plantio, devido ao desenvolvimento esperado da tecnologia de biocombustíveis de segunda geração, como é caso do etanol de lignocelulose.

 

Pesquisas realizadas pelo Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), em conjunto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já viabilizaram a produção de etanol a partir de bagaço de cana-de-açúcar ou da torta de mamona (resíduo da produção do biodiesel), utilizando um processo de quebra de moléculas pela ação de enzimas. "Este é um destino bem mais nobre que o descarte ou a queima direta na geração de energia", destaca Bevilaqua.

 

Apesar de ter como matéria-prima resíduos agroindustriais, o etanol de lignocelulose tem as mesmas utilizações do álcool tradicional, inclusive como combustível para veículos. No entanto, sua produção ainda está em fase de pesquisas em todo o mundo, não existindo ainda produção em escala industrial. Até 2013, a Petrobras pretende investir 530 milhões de dólares nas pesquisas com biocombustíveis, e o aproveitamento de resíduos agroindustriais faz parte das iniciativas que receberão investimentos, atesta Bevilaqua.

 

No que diz respeito ao biodiesel, a Petrobras tem feito pesquisas com o girassol e a mamona. Adaptada ao semi-árido brasileiro, a mamona tem um alto teor de óleo, cerca de 42%, e seu subproduto tem alto valor como fertilizante. Outra rota em desenvolvimento é a produção de biodiesel a partir de microalgas. Bevilaqua explica que, atualmente, a Petrobras está trabalhando na identificação e cultivo de microalgas que produzam óleo com qualidade adequada e elevada produtividade.

 

Para gerir essa nova área de atuação foi criada a subsidiária Petrobras Biocombustíveis, cujo objetivo é chegar a 2013 produzindo 25% do biodiesel e 10% do etanol nacional.

 

Resíduos

 

Para Luiz Ramos, professor do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a indústria de bicombustíveis não pode se desenvolver sobre uma base insustentável. Ramos acredita que a preocupação com a destinação dos coprodutos (ou resíduos) é absolutamente fundamental para o sucesso dessa atividade industrial. "Sem isto, seus objetivos perdem credibilidade e suas perspectivas de aceitação na sociedade se vêm fortemente comprometidas."

 

Ramos explica também que as pesquisas para o aproveitamento dos coprodutos do processo de produção de bicombustíveis, além do fator ecológico, têm um forte apelo econômico, uma vez que agregam valor a todo o processo. Isto porque gerar uma quantidade maior de produtos a partir de uma mesma matéria-prima torna o processo mais rentável.

 

Atualmente, as pesquisas desenvolvidas pelo professor da UFPR buscam o reaproveitamento de resíduos sólidos do biodiesel, como tortas ou farelos de oleaginosas (vegetais que possuem óleos e gorduras). Através de processos fermentativos, esses resíduos sólidos são transformados em biossurfactantes - moléculas que possibilitam a solubilização de compostos em diferentes meios. Ramos explica que os biossurfactantes têm diversas aplicações na indústria alimentícia, de cosméticos, e têm propriedades importantes como alternativa para a remediação de áreas contaminadas por efluentes industriais.

 

O professor lembra que há muitos relatos de indústrias de produção do biodiesel que acabaram causando acidentes ambientais devido ao descarte indiscriminado de resíduos. Efluentes líquidos como a glicerina bruta, o vinhoto ou águas servidas de grande demanda de oxigênio foram os descartes mais comuns de indústrias que ainda iniciavam suas atividades e não mantinham o controle apropriado de resíduos. No caso dos resíduos sólidos, como os utilizados na pesquisa citada, a contaminação estaria associada à decomposição desses materiais de forma descontrolada, gerando chorume e gases mal cheirosos. Quando acumulados em grandes quantidades a céu aberto, o ambiente acaba se tornando ideal para o desenvolvimento de microrganismos nocivos, com atividades metabólicas que levam à contamicação do solo e da água. Ramos explica que basta um controle simples como a compostagem para se obter desses resíduos adubos orgânicos de boa qualidade. "No entanto, esta não é uma opção nobre para a destinação de tortas e farelos, mas apenas um paliativo para a solução de problemas pontuais", ressalta o professor.

 

Segundo Ramos, na verdade esses coprodutos do processo de produção de biodiesel são de grande importância para a cadeia produtiva. "Essas tortas e farelos correspondem a matérias-primas nobres, de onde se pode retirar uma multiplicidade de produtos de grande interesse e alto valor agregado, fato que precisa ser explorado pelos produtores para aumentar a viabilidade econômica do processo como um todo."

 

Ração animal

 

Pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Agroindústria de Alimentos - em parceria com a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Universidade Estadual de Londrina (UEL) e com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) - têm buscado outras aplicações para esses coprodutos. Após a retirada do óleo da mamona para aplicação na produção de biodiesel, os restos sólidos têm sido tratados e transformados em ingredientes para ração animal com alto valor protéico, de cerca de 40%.

 

José Luis Ramírez Ascheri, pesquisador da Embrapa, explica que os resíduos resultantes da geração de bicombustíveis podem promover uma outra cadeia de valor. "Considere o fato do que já acontece com a cana-de-açúcar. O bagaço é transformado em energia elétrica através da queima e sua consequente geração de vapor e movimentação de turbinas para produção da energia elétrica. Isto implica em fechar o circuito econômico de custos de produção na cultura da cana e produção de álcool." Ascheri lembra que uma segunda razão, mas não menos importante, é a ecológica, evitando assim transtornos ao ambiente.

 

Para ser utilizada como ingrediente em ração animal, a torta de mamona precisa, antes de tudo, ser desintoxicada. Ela passa por um processo que retira a ricinina (substância tóxica da planta) e neutraliza os compostos alergênicos presentes. O atual processo desenvolvido pela Embrapa já conseguiu retirar 98% das toxinas da torta. Assim, quando misturada a outros ingredientes, essa porcentagem é diluída, tornando o produto apropriado para o consumo animal. "Com a torta de mamona, acreditamos que já temos o processo tecnológico da destoxificação. Com isso, agora só falta concluir os testes em animais."

 

Processo de destoxificação por extrusão da torta de mamona realizado na Embrapa:

 

 

Segundo Ascheri, até o final do ano esses testes estarão concluídos, mas ele já adianta que, até o momento, a ração que conta com 40% da torta de mamona desintoxicada tem tido ótimos resultados.

 

O pesquisador da Embrapa explica que até então, a torta de mamona vinha sendo utilizada como adubo orgânico, pois é uma excelente fonte de nitrogênio, potássio, fósforo, e também age como controladora de algumas pragas. Apesar disso, seu valor de mercado como adubo está em cerca de 300 reais por tonelada; já a torta pronta para ser utilizada na ração animal chega a 750 reais por tonelada.Fim da reportagem

lista de reportagem