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O júbilo de Quaresma

 

  • Livro de Lima Barreto

 

Por João Eduardo Justi


 

Um dos principais romances pré-modernos da Literatura Brasileira, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, é publicado em livro, pela primeira vez, em 1915. Três anos antes, porém, o público já havia tomado contato com a história, através da edição da tarde do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, onde foi divulgada em forma de folhetim.

 

Da imaginação de Lima Barreto surge o personagem mais nacionalista de todos os tempos. Policarpo Quaresma é um patriota fanático para quem tudo no Brasil e do Brasil é superior. Esse patriotismo leva-o, por exemplo, a valorizar o violão - instrumento marginalizado na época, sinônimo de malandragem -, conferindo-lhe valores nacionais. Junto às aulas de música, parte em busca de modinhas do folclore brasileiro e em sua pesquisa acaba descobrindo, com grande decepção, que um bom número de nossas tradições e canções vinha do estrangeiro.

 

Quão orgulhoso não ficaria Quaresma ao poder participar, nos dias de hoje, da Mostra Internacional de Música de Olinda (MIMO), que na sua sexta edição, realizada em setembro último, valorizou a produção da música popular brasileira exibindo filmes que contam um pouco a história de grandes artistas nacionais. "Orquestra de Meninos", sobre a vida do maestro pernambucano Mozart Vieira, e "Música é Perfume", que apresenta uma análise do processo criativo da cantora Maria Bethânia e o mapeamento da formação da música popular brasileira, foram os destaques do evento.

 

Decepcionado, mas nunca desanimado, Quaresma decide estudar algo genuinamente brasileiro: os costumes tupinambás. Abandonando o violão, o Major (como era conhecido) volta-se para o maracá e a inúbia, instrumentos indígenas tipicamente nacionais. E vai mais longe: propõe, em documento enviado ao Congresso Nacional, a substituição do Português pelo Tupi-guarani, a verdadeira língua do Brasil. Resultado? Ridicularização. Aposentadoria por invalidez. Hospício.

Satisfeito estaria ele se pudesse acompanhar o trabalho do Centro de Estudos Indígenas "Miguel Angel Menéndez" (Ceimam), grupo de estudos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), cujo objetivo é estudar a organização social dos povos indígenas da América do Sul, divulgar pelos meios de comunicação as questões relacionadas aos povos indígenas e apoiá-los em suas lutas por direitos, tais como terra, saúde, desenvolvimento socioambiental, sustentabilidade e educação.

 

O Ceimam edita um periódico denominado Terra Indígena que já está em sua 87ª edição. Alunos de graduação em Ciências Sociais, Pedagogia, Economia e Letras da Unesp e que participaram das atividades do Ceimam fizeram suas pós-graduações e seguiram carreira acadêmica, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa e extensão, voltados para a temática indígena. Também, vários desses ex-alunos são hoje professores de escolas de Ensino Fundamental e Médio da rede pública e particular e aplicam seus conhecimentos adquiridos no envolvimento com o Ceimam em seus projetos educacionais.

 

Após recuperar-se da "insanidade", Quaresma deixa a Casa de Saúde e decidido a trabalhar na terra, compra o Sossego, um sítio no interior do Rio de Janeiro. Animado com a ideia de poder tirar da fértil terra brasileira seu sustento e felicidade, adquire vários instrumentos e livros sobre agricultura e logo aprende a manejar a enxada. Depois de algum tempo de falso sucesso e ilusório progresso, o projeto agrícola de Quaresma cai por terra, derrotado por três grandes inimigos. Primeiro, o clientelismo hipócrita dos políticos: como não quis compactuar com uma fraude da política local, passa a ser multado indevidamente; segundo, a deficiente estrutura agrária brasileira que lhe impede de vender uma boa safra, sem tomar prejuízo; e terceiro, a voracidade dos imbatíveis exércitos de saúvas, que, ferozmente, devoravam sua lavoura e reservas de milho e feijão.

 

Infelizmente, Quaresma não conheceu o Fundo Nacional de Apoio aos Micro e Pequenos Empresários Rurais, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, que destina recursos de modo a possibilitar a elevação do índice de geração e manutenção de empregos no campo, o aumento de produção e qualidade de produtos e a diminuição do desperdício.

 

O Major ufanista também ficaria feliz ao analisar os atuais números do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), segundos os quais, em 2008, o agronegócio foi responsável por 26,46% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, 36% das exportações totais e, em 2006, empregava aproximadamente 16,5 milhões de trabalhadores somente no campo. A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) prevê que o Brasil será o maior produtor mundial de alimentos na próxima década.

 

A Revolta da Armada - rebelião dos marinheiros da esquadra brasileira contra o governo - faz com que Quaresma abandone a vida no campo e, como bom patriota, volte ao Rio de Janeiro para combater em defesa do Marechal Floriano Peixoto. Ao final dos sete meses de Revolta, ele é designado carcereiro da Ilha das Enxadas, prisão dos marinheiros insurgentes. Certa madrugada, é visitado por um emissário do governo que escolhe 12 prisioneiros para serem fuzilados. Indignado, Quaresma escreve a Floriano, denunciando as atrocidades cometidas pelo governo e acaba preso e condenado à morte, como traidor, apesar de tanto empenho e fidelidade à nação.

Apesar de tamanha injustiça, com certeza, Quaresma ficaria jubiloso ao perceber que seu triste destino e fim não coincidem com o destino do desenvolvimento brasileiro empreendido por centenas de profissionais e pesquisadores que se utilizam das armas e possibilidades da Ciência para construírem um país cada vez mais forte e próspero.Fim da reportagem

 

João Eduardo Justi é mestrando em Comunicação e jornalista do Laboratório Aberto de Interatividade da UFSCar.