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Energia que vem do lixo

 

  • Tubulação retira o biogás do aterro

Usinas aproveitam lixo de aterros transformando-o em energia elétrica

 

 

Se há uma coisa que não falta nas grandes cidades é lixo. Esta é uma conta simples: quanto mais pessoas, mais lixo gerado. Mas você já pensou que todo esse lixo pode se transformar em energia elétrica através de um processo limpo, sustentável e ainda por cima rentável?

 

Pois pesquisadores têm estudado justamente a viabilidade desse processo. O lixo orgânico produzido nas cidades atualmente representa mais da metade de todos os resíduos dos centros urbanos. Ao ser destinado aos aterros sanitários, esse lixo sofre naturalmente um processo chamado de digestão anaeróbia - microorganismos que sobrevivem na ausência de oxigênio realizam a decomposição da matéria orgânica. O resultado desse processo natural é o biogás, um composto cujos principais gases são o gás carbônico (CO2) e o metano (CH4).

 

Devido à toxidez do metano e por ser um dos principais gases causadores do efeito estufa, boa parte dos aterros já fazem a queima simples dele. Ou seja, os coletores levam o gás à superfície, onde ele é queimado. Porém, sendo um gás com alto poder de combustão, ele pode ser destinado para sistema de geração de energia. Segundo Christian Luiz da Silva, professor de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a energia pode ser gerada de duas formas através do biogás. Ou por motores de combustão interna ou por turbinas a vapor (nos quais a água é aquecida pela queima do gás e impulsiona a turbina para a geração de energia).

 

A queima ser mais ecologicamente correta do que simplesmente liberar o gás. Parece estranho, não? Gilberto Martins, professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do ABC (UFABC), explica que essa queima do gás metano resulta em gás carbônico, que tem um potencial causador do efeito estufa 21 vezes menor. Assim, mesmo que não se gere energia da queima do gás, é recomendado que ele seja queimado para minimizar os danos.

 

Martins lembra que também há um outro tipo de processo de geração de energia através do lixo. Nele os resíduos são incinerados em uma espécie de caldeira, que por sua vez gera vapor para acionar as turbinas transformando energia cinética (movimento) em energia elétrica. No entanto, o professor da UFABC ressalta que essa queima precisa ser bem controlada e possuir uma série de sistemas de limpeza dos gases gerados, pois a queima do lixo pode gerar compostos altamente tóxicos.

 

Devido ao alto investimento necessário para a montagem das usinas, é indispensável um minucioso estudo quanto à viabilidade. Silva explica que em estudo realizado no aterro da Caximba, em Curitiba, verificou-se que o investimento necessário para a montagem da usina que geraria 1MW (suficiente para abastecer 10 mil casas) seria de 3,7 milhões de Reais. Com uma vida útil de 12 anos, apenas a venda da energia elétrica não seria suficiente para quitar o investimento inicial. Assim, a implantação só se tornaria rentável com a venda dos chamados créditos de carbono.

 

Com o protocolo de Kyoto, implantado em 1997, foi estabelecida uma política internacional de redução das emissões dos gases de efeito estufa. Através do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), países desenvolvidos, que devem reduzir suas emissões de gases de efeito estufa, podem comprar Reduções Certificadas de Emissão dos países em desenvolvimento, que não têm obrigação de reduzir suas emissões. Assim, os que poluem podem comprar os créditos de carbono daqueles que mantém programas de desenvolvimento sustentável.

 

No entanto, para obter a certificação da redução das emissões, ou seja, poder vender os créditos de carbono, os projetos devem cumprir uma série de requisitos. Segundo Martins, deve-se, através de metodologias adequadas, comprovar a redução das emissões. Após comprovada, o processo ainda será constantemente monitorado para verificação de seus índices de redução.

 

Os créditos de carbono, por sua vez, são negociados em pregões eletrônicos em bolsas de valores. Cada tonelada de CO2 não emitida equivale a 1 crédito de carbono. O metano, por ser mais poluente, tem sua relação de 1 para 20. Ou seja, cada tonelada de metano transformada em CO2 vale 20 créditos de carbono.

 

Usinas paulistanas

 

Na região metropolitana de São Paulo, dois aterros sanitários transformados em usinas em 2003 e 2007 já somam 43 MW de potência. A primeira, construída em 2003, está localizada no aterro Bandeirantes. Após 28 anos em funcionamento, suas 35 milhões de toneladas de lixo acumuladas geram 20 MW. Já no caso do aterro São João, que funcionou durante 15 anos e acumulou 26 milhões de toneladas de lixo, a usina instalada tem 23 MW de potência.


Em ambos os casos, tubulações retiram o biogás do aterro e levam a uma estação onde é feita a compressão do gás. Após comprimido o biogás é usado para alimentar motogeradores - motores que transformam a energia mecânica das explosões em energia elétrica. Toda energia produzida é vendida para a Eletropaulo - concessionária responsável pela distribuição de energia da região metropolitana de São Paulo.

 

Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo, a cidade arrecadou em 2009 37 milhões de Reais referentes à venda dos créditos de carbono conseguidos com a captação do metano nos aterros Bandeirantes e São João.Fim da reportagem

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