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"Faltam no Brasil grandes centros de divulgação do conhecimento"

 

  • Max Cardoso Langer

Em entrevista à ClickCiência, Max Cardoso Langer, professor do Departamento de Biologia da Universidade de São Paulo, campus Ribeirão Preto, e vice-diretor da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP), conta um pouco sobre o surgimento da Paleontologia e da SBP no Brasil. Langer faz também uma avaliação do atual cenário dessa área de pesquisa.

 

ClickCiência - Em que momento histórico é possível dizer que a Paleontologia como ciência começa a ser praticada no Brasil?


A gente está falando basicamente das primeiras expedições paleontológicas, em geral feitas por estrangeiros. O chamado "Pai da Paleontologia brasileira" é um dinamarquês, o Peter Wilhelm Lund. Ele fez coletas em grutas calcárias na região de Belo Horizonte. Isto se deu um pouco antes da metade do século XIX. Depois disso você tem outras expedições de pessoas da Europa, EUA, coletando fósseis do Brasil. Esse material do Lund, por exemplo, está depositado em Copenhague, na Dinamarca. Os primeiros fósseis coletados cientificamente no Brasil não estão mais aqui, foram para a Dinamarca! Vale ressaltar que isso aconteceu em uma época na qual não havia leis que protegessem os fósseis brasileiros. Os primeiros trabalhos de brasileiros mesmo já são no começo do século XX, ainda incipientes, no Rio Grande do Sul, em algumas partes de São Paulo. A Paleontologia brasileira se tornou mais dinâmica, com descrição de novos fósseis, há apenas 50 anos.


CC - É neste momento também que se dá a criação da Sociedade Brasileira da Paleontologia (SBP)?


Sim. Em 2009 a gente fez 50 anos. Mas é uma coisa concomitante. Não quero dizer que foi por conta disso. Na verdade, no momento em que você já tem um grupo de pessoas formado e trabalhando na área é natural que surja a ideia de criar uma sociedade. Então, a SBP foi mais uma consequência da existência dessa massa crítica de paleontólogos.


CC - Mas ela surge para suprir alguma necessidade? Para fazer as informaçõescomeçarem a circular, para organizar essas pessoas?

 

Inicialmente, você tem a ideia de organizar os eventos, as reuniões que são bianuais, o Congresso Brasileiro de Paleontologia, então na verdade veio na esteira disso. Uma entidade que organizava esses eventos inicialmente e, com o tempo, foi assumindo outros papeis, como o de representar os paleontólogos brasileiros. A gente não tem nenhuma ligação governamental, a SBP é uma sociedade civil e a ideia é que a gente seja a voz dos nossos associados. Nem todos os paleontólogos brasileiros são sócios da SBP, mas acredito que a grande maioria deles seja. Então, se em algum momento existe um anseio dessa comunidade, isto passa através da diretoria e a gente pode enviar cartas e sugestões para instâncias governamentais, mas é só no sentido de fornecer ideias. A gente não tem nenhuma atitude gerencial, por exemplo, com os fósseis brasileiros.


CC - Além dessa postura de representação dos pesquisadores, quais outros objetivos tem atualmente o trabalho da SBP?


Uma coisa que foi, vamos dizer, uma conquista das últimas diretorias, foi a criação e o fortalecimento da Revista Brasileira de Paleontologia, que está já no seu nono ano. A gente finalmente se organizou internamente, porque essas sociedades se originam de uma forma muito artesanal, os cientistas não são muito profissionais quando você fala de burocracia. Até umas três gestões atrás, as atas, as reuniões, não eram oficializadas em cartório, era uma coisa bastante informal. A Sociedade existia oficializada, mas não havia um tratamento adequado do ponto de vista burocrático. Isto tudo foi organizado pelas últimas gestões. Na nossa gestão agora, estamos trabalhando junto ao Ministério da Ciência e Tecnologia, conseguimos a criação de um edital, junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), especifico para Paleontologia. Foram alocados R$ 6 milhões só para a Paleontologia brasileira. Pode não parecer uma soma tão volumosa assim, mas para a Paleontologia é uma coisa sem precedentes. Até então, a gente capengava com projetos em torno de R$ 100 mil, de repente vamos poder pedir um volume bem mais significativo de verba!


CC - Existe uma dificuldade de financiamentos para projetos dentro dessa área depesquisa?


Existe. Na verdade a Paleontologia é uma ciência muito barata. Eu costumo brincar com meus colegas da Biologia, que precisam de sequenciador, microscópio eletrônico etc., que na Paleontologia a coisa mais cara que a gente pode pedir é uma britadeira. Não é muito cara a pesquisa, mas, ao mesmo tempo, não sei se por conta de uma demanda pequena, até que ponto os paleontólogos estão realmente pedindo dinheiro, ou até que ponto eles pediram e não conseguiram. Por exemplo, aqui no Estado de São Paulo, só houve três projetos temáticos financiados pela Fapesp até hoje, é irrisório. Então, ou os paleontólogos não estão pedindo dinheiro, ou eles estão pedindo e não estão ganhando.

 

CC - E no caso dos incentivos para coleções e museus?

 

Aí tem vários níveis. No Estado de São Paulo a gente tem algumas iniciativas individuais, com apoio às vezes de prefeituras, mas não existe uma ação geral do Governo para fomentar a Paleontologia. Vimos surgir pequenos museus aqui em Monte Alto (próximo a Ribeirão Preto), em Marília, em Taubaté, no entanto são iniciativas de paleontólogos locais, boa parte deles até amadores. Mas são pessoas que vivem em locais com fósseis e estes começam a aparecer e a serem coletados pelas pessoas da região. Com esse material se acumulando surge a iniciativa de se criar um pequeno museu, uma coleção, praticamente sem apoio governamental. Às vezes o prédio é dado pela prefeitura, esse tipo de coisa. Houve há pouco tempo a exposição "Dinos na Oca", que também não contou com ajuda do governo. A gente vê que existe uma carência, mas o incentivo do governo pra isso ainda é muito pequeno. Em nível federal a coisa é um pouco diferente, em algumas regiões que tradicionalmente são ricas em fósseis, como o Rio Grande do Sul ou o sul do Ceará, são lugares onde existe o aporte de verba, seja do governo estadual ou da União. Aí sim existe uma estrutura.

 

CC - Esse tipo de espaço é importante para a divulgação da Paleontologia?

Seria uma importante forma de divulgação se não estivesse centrada apenas em alguns locais. O sul do Ceará, por exemplo, não é uma região particularmente populosa, não existe uma demanda local para conhecimento em Paleontologia, o que acontece é que lá existe o problema no local: conscientizar as pessoas, dessas regiões ricas em fósseis, que os fósseis precisam ser preservados. Então, montar uma pequena coleção, um museu, atividades educativas, tudo isso é muito bom. Mas o mais importante é que faltam no Brasil grandes centros de divulgação do conhecimento não só paleontológico, mas cientifico em geral. Isto a gente não tem. Temos o Museu de Ciência e Tecnologia da PUC em Porto Alegre, tem o Museu Nacional no Rio de Janeiro, mas deveria haver mais locais onde as pessoas poderiam se informar a respeito de Ciência e Tecnologia em geral e em Paleontologia em particular.

 

CC – Em relação ao cenário atual de pesquisa em Paleontologia no Brasil, até onde já chegamos? O que precisamos evoluir?


Muitas vezes eu estou com colegas de fora e perguntam isso pra mim. De forma geral, no mundo e, especialmente, nos países ditos desenvolvidos, na América do Norte e Europa, as posições das ciências básicas em geral e da Paleontologia em específico estão se fechando. Não tem havido um incremento no quadro de paleontólogos nesses países. Ao contrário, está tendo um encolhimento. E quando converso com as pessoas, percebo que no Brasil está acontecendo exatamente o contrário. Eu nunca vi uma época em que tantos concursos para paleontólogos são abertos, você tem uma média de quase 10 concursos por ano, nos últimos quatro anos. Mas tem o outro lado: praticamente não há pessoas qualificadas para ocupar essas posições. Então, se essa tendência de incremento no número de paleontólogos continuar, o nosso problema vai ser formar pessoas qualificadas para ocupar esses postos. Deve haver então um incentivo nos cursos de pós-graduação em Paleontologia para que os profissionais sejam formados e ocupem essas posições.Fim da reportagem