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Viagem no tempo

Estudar fósseis encontrados em camadas profundas do solo é a principal ferramenta para se entender a vida no passado

 

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Você já ouviu falar em Paleontologia? Se já, provavelmente ao pensar a respeito lhe vieram à mente imagens de ossadas de dinossauros. Apesar de estar presente no nosso imaginário como algo relacionado a esses grandes animais extintos, a Paleontologia é bem mais do que isso.

Esse ramo da Ciência, que teve início a partir de uma união entre Geologia e Biologia, busca entender a vida na Terra em um intervalo bastante abrangente: de cerca de 3,8 bilhões de anos atrás, no surgimento da vida no Planeta, até aproximadamente 11 mil anos antes de nós, época em que tomavam forma os seres humanos modernos.

 

O termo Paleontologia tem uma origem controversa. Alguns o atribuem ao naturalista francês Henri Marie Ducrotay de Blanville,  outros ao também francês Jean-Claude Delaméthrie. De qualquer forma, a criação do termo teve como objetivo unificar e categorizar os vários estudos que utilizavam material fóssil para compreender melhor a natureza das eras passadas. Para isso, foram utilizados os termos gregos palaiós (antigo) + óntos (ser) + lógos (estudo). Assim, podemos pensar na Paleontologia como a ciência que se encarrega de compreender os organismos vivos que habitaram a Terra em um passado bem distante.

Para estudar essas eras tão distantes, a Paleontologia divide o passado de acordo com os grandes eventos geológicos. As classificações mais usadas para as orientações dessa ciência são as eras e os períodos, localizados na chamada escala geológica de tempo.

 

Como é possível conhecer algo sobre esses animais e plantas que viveram em tais eras e períodos? Marcelo Adorna, professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos, explica que as pesquisas em Paleontologia são baseadas principalmente no estudo dos fósseis. No entanto, diferentemente do que muita gente pensa, esses fósseis não são exatamente ossos que permaneceram intactos durante milhões e milhões de anos. Se pegarmos, por exemplo, a era Mesozóica (entre 251 milhões e 65 milhões de anos atrás), as ossadas dos répteis, que dominaram a Terra naquela época, já sumiram há muito tempo. 

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Mas então, o que são esses fósseis? Basicamente rochas com o formato das partes rígidas de organismos (ossos, conchas, carapaças, troncos etc.). Adorna ressalta que para o surgimento dessas rochas vários processos tiveram de acontecer. No entanto, em todos eles foi preciso que a água estivesse presente. Isto porque, uma vez no fundo de um ambiente aquático, é a água que permite que sais minerais aos poucos preencham a parte rígida dos organismos, enquanto eles se decompõem lentamente. Por isso, um animal, mesmo não sendo aquático, precisa ter seus restos trazidos à água por uma enxurrada ou enchente logo após a sua morte. "Os ossos, cheios de poros, são preenchidos pela água, que precipita dentro desses poros sais minerais, como sílica ou carbonato de cálcio. Com o passar do tempo, o osso acaba sofrendo um processo de dissolução e fica aquilo que a gente chama de osso substituído. É praticamente um molde do que existia", explica Adorna.

O professor Manuel Alfredo Medeiros, do Departamento de Biologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), explica que existem também outras formas de fossilização. Se as cinzas de um vulcão encobrem o organismo, ou se ele acaba no fundo de um pântano muito pobre em oxigênio, os restos ficam isolados de agentes decompositores, o que faz com que as partes mais delicadas do tecido sejam preservadas. Outro processo descrito pelo professor da UFMA é o de mumificação: nele, a carcaça do animal resseca antes de ser enterrada no fundo de um ambiente aquático. Assim, escamas e tecidos internos, que se tornam rígidos pelo processo de ressecamento, acabam durando tempo suficiente para serem substituídos por minerais presentes na água, como no processo mais comum de fossilização.

E como saber em que época um organismo fossilizado viveu? Por meio da análise do carbono 14? Marcelo Adorna destaca que essa ideia bastante comum também é equivocada. Na verdade, o isótopo carbono 14 oferece precisão para datar materiais com até 40 mil anos, intervalo de tempo muito curto para os estudos feitos pela Paleontologia. Além disso, sendo os fósseis formados pela deposição de minerais que assumiram a forma antiga do organismo, o carbono não está presente. Para resolver esse problema, são analisados então outros tipos de isótopos radioativos, estes sim presentes nas rochas, como o estrôncio e o urânio. Como o solo é formado por camadas de deposição de sedimentos, os fósseis dos organismos do passado estão enterrados justamente na camada de sedimentação da sua era. Ou seja, quanto mais abaixo a camada estiver, mais antiga ela é. 

Nessa busca por compreender o passado e responder questões ligadas à evolução dos organismos e do próprio Planeta, a Paleontologia oferece importantes contribuições à formulação de teorias em outras áreas. Adorna lembra que os fósseis ajudaram, por exemplo, na construção da teoria das placas tectônicas. Ao se encontrar fósseis dos mesmos animais no Brasil e na África, foi possível conceber a ideia de que os continentes já estiveram unidos um dia.


Além de uma vasta vida animal, que vai muito além dos dinossauros , a Paleontologia tem outras importantes áreas de pesquisa, como a Paleobotânica e a Micropaleontologia. Isso porque, da mesma forma que os animais, a vida vegetal sofreu um grande processo de evolução. Sendo as plantas os produtores primários, a base de energia para os outros seres, o estudo da Paleobotânica é a base para entender toda a organização da vida. Já a Micropaleontologia vai ainda mais longe, estudando os estágios iniciais da vida na Terra e toda a vida microscópica que se desenvolveu a partir daquele momento. Essa área de pesquisa também é imprescindível para a prospecção de petróleo e gás natural, uma vez que esses recursos têm sua formação ligada a restos orgânicos muito antigos.

Como área de pesquisa, a Paleontologia no Brasil passou por um grande avanço nos últimos anos. Para o professor da UFMA, os motivos dessas conquistas estão relacionados ao uso de  novas tecnologias nas pesquisas (GPS, fotos de satélite, microscópios potentes) e, também, à organização e integração dos grupos que estudam essa ciência no País. Diferentemente das suas áreas afins, como a Zoologia e a Geologia, a Paleontologia tem bem menos adeptos. No entanto, pequenos grupos de pesquisa têm contribuído sobremaneira para o avanço do conhecimento Fim da reportagem

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