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Paleobotânica: porque não só de dinossauros vive a Paleontologia

 

Estudos de outros elementos que existiram no passado, como plantas e até grãos de pólen, ajudam os cientistas a compreender melhor o processo de evolução do nosso planeta

 

Os grandes animais e, em especial, os dinossauros são rapidamente lembrados quando se fala em Paleontologia. Contudo, apesar de sua importância, eles não são os únicos a instigarem a curiosidade dos cientistas que tentam entender melhor a vida existente no passado de nosso planeta. Antigas espécies vegetais não são objetos menos importantes, na visão dos paleontólogos. E, além dos elementos de grande dimensão, os pequenos (muitas vezes, invisíveis a olho nu) são considerados igualmente relevantes para as pesquisas científicas.

Justamente por isso a Paleontologia criou algumas subdivisões, como a Paleobotânica, voltada ao estudo dos fósseis de plantas, e a Palinologia, dedicada à investigação de esporos e grãos de pólen de outras eras. E esses estudos guardam uma característica importante, além da melhor compreensão do passado: eles podem revelar informações importantes também sobre o  futuro.

Plantas fósseis
A professora Margot Guerra Sommer, do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conta que o principal objetivo da Paleobotânica é proporcionar subsídios à compreensão da origem, evolução e diversificação das plantas através das idades geológicas. Isto significa entender o que ocorreu ao longo de vários períodos de milhares de anos, nos quais a Terra sofreu diversas mudanças. "As plantas, por se constituírem nos produtores primários dominantes em todos os ecossistemas terrestres, fornecem a energia da qual todos os animais terrestres dependem. Dessa forma, dado esse status ecológico singular, as plantas fósseis são um marco central para a compreensão da organização e funcionamento das paleocomunidades, como também da evolução dos ecossistemas terrestres através do tempo", explica.

  • Árvore fossilizada em um sítio paleobotânico.

Sabendo quais plantas existiam e como elas eram, os cientistas conseguem  desvendar informações preciosas como, por exemplo, as mudanças do clima, os avanços e retrocessos de formações florestais, os tipos de alimentos disponíveis e como, com o passar do tempo, essas características foram mudando e ao mesmo tempo moldando o mundo como o conhecemos nos dias atuais. Ainda segundo a professora Margot Sommer, por meio da integração de estudos biológicos e geológicos das biotas terrestres (o conjunto de seres vivos que habitavam determinado ambiente), a pesquisa paleobotânica pode subsidiar políticas públicas fornecendo uma base de dados riquíssima que auxilie na tomada de decisões nas áreas de conservação, ecologia e validação de modelos climáticos relativos ao aquecimento global. "Essa base de dados fundamenta-se no fato de que as plantas são os organismos mais sensíveis às modificações climáticas em escala continental, constituindo-se em um testemunho contundente de modificações climáticas que afetaram e afetam o ambiente terrestre. Essa ciência oferece, portanto, uma perspectiva fundamental por meio da qual podem ser estabelecidas hipóteses não testáveis por outros métodos", completa.

Que planta é essa?


As plantas que compunham o ambiente no longínquo tempo estudado pelos paleontólogos eram muito diferentes das que compõem a flora nos dias de hoje, embora grande parte destas sejam suas descendentes. A pesquisadora Fresia Soledad Ricardi Torres Branco, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que o registro mais antigo de plantas continentais - aquelas que crescem em terreno seco, fora da água - data de aproximadamente 420 milhões de anos atrás. Tais espécies não tinham folhas nem raízes e chegavam a uma altura de aproximadamente 10 centímetros. "Foi o início da saída da vida do mar para o continente. Primeiro vieram as plantas, associados a elas os insetos e depois, quando esse ecossistema costeiro litorâneo estava um pouco melhor estabelecido, começaram a se aventurar para fora da água os vertebrados, nossos ancestrais", relata. 

Plantas não tão antigas quanto estas, mas também habitantes de longa data do Planeta, ainda podem ser encontradas nos dias de hoje. Fresia Branco explica que as angiospermas - as plantas com flor - dominantes atualmente já existiam há 110 milhões de anos. Entre os principais correspondentes aos exemplares daquela época estão espécies como a magnólia e a vitória-régia, dentre outras. Um dos principais desafios das pesquisas paleobotânicas é tentar descobrir quais plantas deram origem a essas angiospermas, grupo de grande importância para o ser humano. "A nossa vida gira em torno desse recurso, já que a gente come feijão, arroz, salada, fruta, se veste com tecido de algodão, usa a cana-de-açúcar para gerar o etanol que faz funcionar o nosso carro, enfim, a vida da gente depende das angiospermas", exemplifica a pesquisadora da Unicamp, justificando a importância desse estudo.

 

Os resultados das pesquisas paleobotânicas revelam que as mudanças no ambiente ao longo desse grande espaço de tempo foram responsáveis pelo surgimento de novas espécies, mas ao mesmo tempo pela extinção de outras tantas, seguindo o contínuo processo da seleção natural. Todavia, essas mudanças ocorriam ao longo de milhares ou até milhões de anos, ao contrário do que ocorre nos dias atuais, que vivem um acelerado processo de diminuição da biodiversidade.

Isto reforça a necessidade de uma reflexão sobre o atual ritmo de extinção das espécies gerado pelas atividades humanas "Extinção é para sempre. Pode ser que alguma forma seja parecida morfologicamente, mas geneticamente, não. Se extinguiu, desapareceu, não tem mais. Por isso é que temos de preservar o que existe hoje em dia, porque não vai ter como recuperar", alerta a pesquisadora.

Descoberta


Que o conhecimento sobre plantas do passado é importante não há mais dúvidas. Mas como é que o cientista faz para encontrar um material tão antigo? A resposta é simples. Ele procura no lugar certo!

  • Vestígios de samambais encontrados no Município de Filadélfia, TO.

A professora Margot Sommer, da UFRGS, explica que um amplo leque de fatores biológicos e geológicos atua na preservação de ocorrências fossilíferas, ou seja, na conservação dos registros fósseis. Ela explica que a preservação de restos vegetais por meio de diferentes tipos de fossilização (petrificação, impressões e compressões) ocorre predominantemente em sedimentos continentais, originados em ambientes fluviais, lacustres e costeiros.. "Dessa forma, a seleção de áreas potencialmente fossilíferas deve ser estabelecida a partir da análise de mapas geológicos regionais, que distinguem os diferentes tipos de rochas", afirma.

 

E não basta escolher o local, é preciso estar atento também ao processo de coleta, que não é feita de forma aleatória, mas com base em informações sobre o ponto de ocorrência, localização geográfica e posição na sequência geológica. E ainda é preciso fazer uma triagem das formas mais representativas e levá-las para laboratório, onde são preparadas e analisadas.

No Brasil, apesar de muitos desses vestígios continuarem ocultos, alguns grandes sítios paleobotânicos enchem os olhos de seus visitantes e aguçam ainda mais a curiosidade dos cientistas, como por exemplo a Floresta Petrificada do Tocantins Setentrional (no município de Filadélfia, TO), considerado o mais exuberante e importante registro florístico tropical-subtropical permiano no Hemisfério Sul. Transformada em área de proteção no ano 2000, a Floresta Petrificada tem seus registros fossilíferos espalhados por uma área de cerca de 32 mil hectares cobertos pelo cerrado. Boa parte do material fossilizado da área é composta por samambaias do gênero Psaronius (atualmente extinto). Esses vegetais pré-históricos podiam chegar a 10 metros de altura e sofreram, ao longo de extensos períodos, infiltração e impregnação de sílica – abundante naquele ambiente – nas suas estruturas internas, tranformando-se em "plantas de pedra".

 

  • Pólen: pequenos grãos que revelam segredos do passado

 Palinologia: a importância do  estudo dos grãos de pólen 

Se já é difícil imaginar e descobrir o fóssil de uma planta, imagine então fazer isso com uma parte ainda menor dela. Diminua um pouco mais e tente imaginar o fóssil de um grão de pólen. Achou difícil? Pois saiba que esse mundo milimétrico é o campo de trabalho dos pesquisadores que se especializam em Palinologia. (Leia também "Micropaleontologia: aqui tamanho é documento", nesta edição.)

Pólen e esporos - partes do órgão reprodutor das plantas -  são os principais objetos desse estudo. Como são transportados pelo vento, pela água ou por outros agentes como insetos, e depositados em antigas bacias sedimentares, formam depósitos ricos. Ao se localizar um afloramento - nome que é dado a uma região onde se encontra um registro fóssil - , localiza-se um resumo da vegetação que havia ao redor e, com isso, é possível apontar características das espécies que viveram na região, da vegetação e, por consequência, do clima. 

Encontrar algo tão pequeno não é tarefa fácil. "Nem toda rocha sedimentar possui microfósseis. Muitas vezes, só vai se saber se a rocha é microfossilífera após a preparação do material,  o que envolve tempo e dinheiro", conta o professor Thomas Fairchild, do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo.

Embora complexo, os pesquisadores garantem que esse tipo de registro é considerado preciso e detalhado e, por isso, muito importante. Quem atua na área garante que o trabalho é empolgante. Mas antes de achar que pode sair por aí e tropeçar numa descoberta científica importante, saiba que é preciso mais do que sorte para se tornar um pesquisador da área. Quem quiser enveredar por esse universo deverá cursar graduação em algum curso de Biologia ou Geologia que ofereça a disciplina como opcional e, se quiser ir ainda mais longe, buscar alternativas de pós-graduação. Alguém se aventura? Fim da reportagem

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