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Micropaleontologia: aqui tamanho é documento

 

Entenda como elementos microscópicos podem ajudar os cientistas a descobrir, com precisão, informações de relevância científica e econômica

 

Descobrir vestígios de algo que existiu há milhares de anos não é uma tarefa simples. Embora não sejam raras as notícias sobre descobertas paleontológicas, não é todo dia que se esbarra em algo de valor científico. E se já é difícil encontrar o esqueleto de um grande dinossauro, por exemplo, imagine então descobrir uma lasquinha do dente de um deles. E o que dizer então de restos de organismos com menos de dois milímetros de dimensão, de uma microalga, ou de alguns míseros grãozinhos de pólen? Acha pouco? Pois saiba que para a Micropaleontologia, tamanho (por menor que seja) é, sim, documento. E dos mais precisos e valiosos.

O professor Thomas Rich Fairchild, do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), explica que a Micropaleontologia é uma das principais ferramentas utilizadas por pesquisadores para entender a vida do passado. "Por meio de estudos micropaleontológicos identificamos os microrganismos mais antigos do Planeta, com quase 3,5 bilhões de anos, e temos uma ideia do surgimento e evolução de muitos tipos de microrganismos importantes nos ecossistemas de cada período do tempo geológico", explica.

  • Microfósseis: importantes pistas sobre as reservas petrolíferas.

Mas a importância dos microfósseis não para por aí. Além de importantes informações sobre o passado, eles também podem dar pistas sobre o presente do Planeta, datando com maior exatidão as camadas geológicas e indicando, assim, possíveis reservatórios de petróleo e gás natural.

Cada período geológico específico tinha sua própria comunidade de microrganismos. Assim, ao se deparar com algumas espécies características, é possível ao Micropalentólogo saber com exatidão o período de formação daquela camada geológica onde esses microfósseis estão localizados. Como as grandes reservas de petróleo foram formadas durante o Carbonífero, encontrar indícios de algumas das espécies associadas a esse período pode indicar a presença de valiosas reservas desse cobiçado recurso.


O potencial econômico associado às pesquisas faz desta uma das áreas mais promissoras dentro da Paleontologia. No entanto, há várias dificuldades para se atuar nessa área, a começar pelo local adequado para desenvolver esse tipo de pesquisa. "Nem toda rocha sedimentar possui microfósseis. Muitas vezes só é possível saber se a rocha é microfossilífera após a preparação do material, o que envolve tempo e dinheiro. Nem todo microfóssil tem valor para datar a rocha ou entender mais sobre como ela se formou. A preparação das amostras muitas vezes necessita de laboratórios especializados e utiliza equipamentos e agentes químicos (ácidos fortes, por exemplo) perigosos. Os pesquisadores geralmente precisam de treinamento especializado", enumera o professor Fairchild. Por conta disso, ele acrescenta que praticamente todas as descobertas importantes na Micropaleontologia são feitas por pesquisadores em instituições de pesquisa e não fortuitamente por leigos ou amadores interessados.

Um mundo à parte

Diferentemente do que ocorre em outras áreas, à Micropalentontologia não importa muito saber com exatidão qual é a espécie analisada, mas sim a qual grupo ela pertence. O professor Dermeval Aparecido do Carmo, do Departamento de Geologia Geral e Aplicada do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), explica que os microfósseis podem ser divididos em quatro grandes grupos, de acordo com suas características: os carbonáticos, os silicosos, os orgânicos e os fosfáticos. A diferenciação também determina a técnica  a ser aplicada, conforme o tipo de estudo.

Mas se o nosso conhecimento sobre a diversidade de vida que habita o Planeta hoje ainda está longe da totalidade, quanto se pode saber a respeito de vidas tão pequenas e que existiram há tantos milhares de anos?

 

A resposta é: pouco! De acordo com o professor da UnB,  os fósseis representam uma pequena parcela de tudo o que existiu. "É o que teve a sorte de ficar preservado e ser encontrado pelos pesquisadores para ser revelado", comenta. Assim, pode-se dizer que esse universo quase desconhecido, que guarda informações tão valiosas, tem um enorme potencial para ser explorado. "Uma amostra que cabe na palma da mão pode conter centenas, às vezes milhares de espécimes completos. Então, a Micropaleontologia é rica, diversificada, e tem muito material. Particularmente, no Brasil, a gente tem um mundo de coisas pra fazer nas nossas bacias sedimentares", conclui Carmo. Fim da reportagem

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