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Nem Metallica escapa

 

Na tentativa de aproximar conceitos da área de estudos de mídia à realidade cotidiana dos alunos de licenciaturas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, resolvi encarar um videoclipe da banda de heavy metal Metallica. Se a cultura midiática é o palco das disputas simbólicas, então uma das mais importantes bandas de rock da atualidade também deve ter lá as suas controvérsias de representação.

 


O clipe escolhido foi o da música “The day that never comes”, do álbum “Death Magnetic”, lançado em 2008. Quando comprei o disco e ouvi a canção pela primeira vez, a imagem que me veio à consciência foi a de um detento, vivendo sua última noite na prisão e aguardando ansiosamente o dia da liberdade – que parece nunca chegar. Vários elementos da letra permitem essa interpretação: “Nascido para te maltratar/ Melhor só aceitar isso / Você se resguarda / Ele acerta sua carne / Você é nocauteado / Boca tão cheia de mentiras / Tende a enegrecer seus olhos / Apenas os mantenha fechados / Continue rezando / Apenas continue esperando / Esperando por ele / O dia que nunca vem”.


Quando assisti o clipe, fiquei surpresa com a história que o diretor Thomas Vinterberg criou: “The day that never comes”  mostra um dia difícil na vida de um soldado americano no Iraque ou no Afeganistão, e cria uma típica história com começo, meio e fim, intercalada por cenas da banda tocando no meio do deserto. E aqui começa um problema rock’n’roll.


Na perspectiva dos estudos de mídia, narrativas são cadeias de fatos que geram um sentido final. Assim, representação e valores emergem do texto, e não de uma suposta interpretação livre do observador. Se quisermos ter consciência dos processos subjetivos através dos quais lemos , introjetamos idéias e damos sentido ao mundo, o primeiro passo é tentar se afastar emocionalmente  das narrativas que nos chegam pela cultura midiática, e olhar o que há ali. Façamos isso.


O clipe de “The Day that never comes” pode ser organizado em termos de começo, meio e fim. A história começa com um grupo de quatro soldados fazendo patrulha em uma região desértica, quando são atingidos por uma explosão. Rapidamente eles se posicionam para contra-atacar, mas um soldado fica ferido. O líder do grupo fornece os primeiros socorros, pede ajuda e tenta manter seu companheiro consciente. A partir daí se desenrolam as complicações da história: o soldado ferido está à beira da morte e é levado de helicóptero, o líder do grupo volta para a base e, enquanto recarrega suas armas, adquire uma expressão sombria, típica de quem pensa em revanche. Ele reúne sua tropa e volta para o deserto. No meio do caminho, os soldados encontram um carro parado, um homem com trajes típicos da cultura muçulmana mexendo no motor, uma mulher de burca dentro do veículo. Os soldados se posicionam estrategicamente ao redor do carro, o comandante manda o homem se ajoelhar e aponta sua arma, e este é o momento de maior tensão na história. Mas a mulher decide sair do carro e caminha com as mãos levantadas em direção ao comandante. Olhos nos olhos e o líder deduz que eles não são terroristas. A arma é abaixada. No final, os soldados ajudam o muçulmano a consertar o carro, deixam-no seguir seu caminho e o comandante olha para o sol, numa atitude reflexiva.


Ao explicitar a evolução do clipe, temos evidências que nos ajudam a refletir sobre o processo narrativo que foi criado ali: como as informações foram fornecidas, atrasadas ou sonegadas, quais pistas foram dadas para guiar nossa interpretação, como a história joga com nossas convicções.


Vejamos. O que o texto nos fornece são indícios de que alguém provocou uma explosão, ferindo um soldado americano, mas não sabemos quem é o autor do atentado. Entretanto, o cenário nos dá uma pista: eles estão no deserto, logo devem ter sido atingidos por inimigos de guerra, iraquianos ou afegãos. Não sabemos se o soldado ferido morreu, mas sabemos que o episódio desencadeou sentimentos de vingança no líder do grupo, por causa do modo como foi construída a cena em que ele recarrega a arma e decide voltar ao mesmo cenário em que foram atingidos no início da história. Quem assiste filmes de guerra está acostumado com cenas de revanche entre mocinhos e bandidos e, no clipe do Metallica, claramente o soldado americano é o herói e os muçulmanos são os vilões. Essa interpretação fica clara se identificarmos o modo como o processo narrativo evolui: os soldados estão fazendo uma ronda de rotina, tranqüilos, mas a tranqüilidade é interrompida por um ataque. É “natural” que eles saiam em busca de justiça...


Quando explicitamos a estrutura e o processo narrativo de uma história, conseguimos reunir dados para identificar as representações e disputas simbólicas que estão em jogo. Fazemos isso identificando os elementos que são estereotipados, aquilo que foge dos estereótipos e quais são os valores subjacentes aos fatos e personagens.


No clipe, temos um estereótipo de herói: embora o grupo seja formado por dois soldados negros e um latino, o líder deles tem olhos azuis e pele clara. É um típico galã americano. Mas não se pode dizer o mesmo sobre o personagem muçulmano: embora ele use os trajes que nos levam a identificar sua origem e cultura, o homem não tem os traços faciais típicos, não tem barba e nem turbante. Por que um se ajusta ao estereótipo e o outro foge?


A repostas está no próprio sintagma narrativo, que foi construído segundo uma perspectiva tipicamente norte-americana daquele fato. Em outras palavras, para que o soldado não atire, o homem muçulmano não pode se parecer com o estereótipo do homem-bomba (embora os homens-bomba sejam minoria no contingente de pessoas que usam barba e turbante no Iraque), caso contrário, americanos típicos poderiam rejeitar o clipe, achando que foi um erro poupar a vida de um inimigo mortal.


Ao evitar o estereótipo estético, o diretor conseguiu fazer do muçulmano uma figura simpática, porque ele não se parece um muçulmano e, por isso, foi poupado. Mas, convenhamos, essa é uma representação sectária, ideológica e injusta que, no final das contas constrói o soldado como um herói consciente e generoso. Mesmo num momento de ira, ele foi capaz de fazer um julgamento e ser justo. Quem se lembra das imagens de tortura na prisão de Guantanamo ou assistiu o documentário “Fahrenheit 11 de setembro” do diretor Michael Moore tem representações bem diversas do exército dos Estados Unidos. Nesse sentido, o clipe do Metallica está mais para filme ideológico de Hollywood do que para uma mensagem crítica típica de culturas supostamente alternativas como o heavy metal.


Curioso foi ler o depoimento que vocalista James Hetfield deu para a MTV americana: “A única coisa que não me interessava aqui era o Metallica estar ligado com alguma guerra moderna ou algum evento corrente que pudesse ser considerado como algum tipo de crítica política de nossa parte”. Ao que parece, sem querer, ele acertou: realmente não há crítica política ali; o clipe apenas reafirma uma posição largamente difundida nos discursos hegemônicos estadunidenses: os americanos fazem o que é certo.


No livro “Aula”, o semiólogo francês Roland Barthes disse que a ideologia é plural como os demônios. Estava certo, ninguém escapa da representação ideológica. Nem o raivoso Metallica.

 

           
  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Alexandra Bujokas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Alexandra Bujokas é graduada em jornalimo, doutora em educação e pós-doutora em Estudos de Mídia pela Open University, Inglaterra. É professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.
  • e-mail: bujokas@uol.com.br