colunistas
  • fonte pequena
  • fonte pequena
  • fonte pequena

Desastres naturais: por que eles atingem mais os pobres do que os ricos?

 

Nos últimos dias de 2009 e durante o primeiro mês de 2010 fomos surpreendidos diversas vezes com notícias que nos deixaram a impressão de que 2012 não é um filme de ficção: é uma premonição. Deslizamentos de terra em Angra dos Reis (RJ) e em São Luiz do Paraitinga (SP), inúmeras enchentes na cidade de São Paulo, queda de ponte no Rio Grande do Sul, inundações no Paraná, foram alguns dos muitos desastres causados por fortes chuvas. E se não bastasse, o terremoto no Haiti, considerado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) o desastre natural mais devastador na era moderna, trouxe-nos a certeza de nossa fragilidade.

Na matéria publicada nesta coluna em janeiro passado discutíamos que muitos dos danos causados pelas chuvas fortes no Brasil nos últimos meses se devem ao mau uso do solo em áreas rurais e urbanas. Meteorologistas apontam que as chuvas que marcam este verão brasileiro estão acima da média. Ainda não se sabe com absoluta certeza se são fenômenos climáticos cíclicos normais, efeito de mudanças climáticas ou uma interação dos dois. Mas muitas imagens mostravam casas simples, invadidas por água e lama, e olhares perdidos de tantos que perderam o quase nada que possuíam.

Enchentes e inundações são desastres naturais, ou seja, são fenômenos da natureza que atingem um sistema social, causando sérios danos e prejuízos que excedem a capacidade dos afetados em conviver com o impacto. Um desastre natural causa perdas de vidas humanas, perdas materiais, econômicas e ambientais e provoca uma grave interrupção do funcionamento de uma comunidade ou de uma sociedade.

Desastres naturais sempre existiram ...

Ao longo da história da humanidade muitos são os registros de eventos naturais que atingiram proporções catastróficas. Vulcões como o Vesúvio, na cidade de Nápoles, na Itália, o Krakatoa, na ilha de mesmo nome na Indonésia, o Tarawera na Ilha Norte da Nova Zelândia, o Bandai-san, em Fukushima no Japão, e muitos outros, causaram em diferentes épocas milhares de mortes. Inundações na China, no Japão, na Alemanha, na Inglaterra, na Holanda, no Peru e em inúmeros países do mundo também já dizimaram populações ribeirinhas e causaram prejuízos materiais incalculáveis. Calcutá, na Índia, foi seriamente afetada em 1864 por um ciclone que causou 80 mil mortes, além de enorme prejuízo material. Em janeiro de 1910, Paris teve quase metade de sua área – incluindo os bairros onde se encontram a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, o Museu do Louvre e a Catedral de Notre Dame – tomada por águas, lama e miséria. Terremotos destruíram cidades como Porto Royal na Jamaica, Lisboa em Portugal, São Francisco nos Estados Unidos, Áquila na Itália e, recentemente, o Haiti.

Os desastres naturais ocorrem porque a Terra é um planeta inquieto. Estima-se que nosso planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos e, ao longo desse período, ele tem mudado continuamente. Essas mudanças refletem atividades decorrentes de dois mecanismos térmicos: interno e externo. Esses mecanismos transformam energia térmica em movimento mecânico ou trabalho. O mecanismo interno decorre do calor e da radioatividade existentes no interior do planeta desde a sua formação. Essas altas temperaturas controlam os movimentos das camadas internas da Terra – o núcleo e o manto – fornecendo energia para fundir rochas, erguer montanhas e mover continentes.

O mecanismo externo da Terra é controlado pelo calor do Sol, que energiza a atmosfera, as terras emersas e os oceanos. Ele é responsável pelo clima e pela vida no planeta. Chuvas, ventos e gelo atuam no intemperismo da superfície da Terra, que transforma rochas em solos; também causam erosão e movimentos de grandes massas de material.

Os mecanismos interno e externo, e a interação entre eles, conferem dinâmica ao planeta, que vez por outra é perceptível por meio de grandes eventos, como vulcões, terremotos e ciclones. Mas convivemos permanentemente com reflexos dessa dinâmica: a água e o seu ciclo hidrológico, o campo magnético terrestre, os reservatórios de petróleo que fornecem óleo e gás, o clima terrestre, o relevo, as praias e as dunas.

São muitos os eventos naturais que provocam desastres e os especialistas costumam classificá-los em três grupos: meteorológicos (granizos, nevascas, geadas, ondas de calor, ondas de frio, furacões, ciclones, tufões, tornados, vendavais), hidrológicos (inundações, secas) e geológicos. Os desastres meteorológicos e hidrológicos estão relacionados com regime climático e com o ciclo das águas, respectivamente, característicos da dinâmica externa da Terra. Os desastres geológicos estão associados à dinâmica interna de nosso planeta e envolvem os terremotos, os vulcões, os tsunamis, os escorregamentos, as subsidências e os soerguimentos.

 

...mas seus efeitos aumentaram muito nos últimos anos

Desastres naturais podem ocorrer em qualquer país, pois os fenômenos naturais que o desencadeiam, como as tempestades, os terremotos e os vulcões existem em diversas regiões do globo. Entretanto, algumas áreas são mais afetadas que outras.

Visando auxiliar o socorro a vítimas de desastres naturais e o planejamento de ações em áreas vulneráveis, o Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (CRED, da sigla em inglês), em parceria com a Organização Mundial de Saúde, mantém uma base de dados sobre desastres que ocorrem no mundo, a Emergency Events Database (EM-DAT). Essa base de dados, com eventos a partir de 1900, é compilada de várias fontes, incluindo agências da Organização das Nações Unidas, organizações não governamentais, companhias de seguros, institutos de investigação e agências de imprensa. Dados da EM-DAT no período 1900-2006 indicam que o continente que apresentou o maior número de registros foi a Ásia, com 3.699 registros, seguido pelo americano, com 2.416 registros¹. Em todo o mundo, os tipos de desastres que mais ocorreram foram inundações (35%) e tempestades (31%), que inclui eventos associados a furacões, tornados e vendavais. Ou seja, 66% dos desastres naturais ocorridos no mundo entre 1900 e 2006 estão vinculados a instabilidades atmosféricas severas.

O relatório Reduzindo o Risco de Desastres: Um Desafio para o Desenvolvimento, elaborado por especialistas de todo o mundo a pedido do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), aponta que no período de 1980 a 2000, quase 75% da população mundial vivia em regiões onde ocorreu pelo menos uma vez um fenômeno como terremoto, ciclone tropical, inundação ou seca. Nesse período, desastres naturais que ocorreram nas diferentes regiões do mundo causaram a morte de mais de 1,5 milhões de pessoas, ou seja, mais de 184 mortes por dia. O relatório foi publicado em 2004 e não inclui as 226 mil mortes em 12 países da Ásia e da costa leste da África, causadas pelo tsunami de 26 de dezembro de 2004, nem as 230 mil mortes apontadas até agora como decorrentes do terremoto do Haiti, ocorrido em 12 de janeiro deste ano.

Em termos mundiais, segundo o relatório do PNUD, e considerando terremotos, ciclones tropicais, inundações e secas, o risco de catástrofe é consideravelmente menor em países com elevado poder aquisitivo do que em países com poder aquisitivo médio ou baixo. Os países considerados como de elevado nível de desenvolvimento humano representam 15% da população exposta, mas apenas 1,8% das mortes.

Por que os desastres naturais atingem mais os pobres do que os ricos?

Existem vários fatores que contribuem para que as populações mais pobres sejam mais afetadas por desastres naturais. A primeira delas se refere ao próprio conceito de desastre natural, que está vinculado aos prejuízos por ele causado. Como o impacto desses prejuízos depende da capacidade da comunidade de suportar o desastre natural, as populações mais carentes são as que mais sofrem com os desastres naturais.

Um aspecto importante a ser considerado diz respeito ao processo de desenvolvimento social e econômico nos diferentes países do mundo e, dentro destes, nos seus diferentes estratos sociais. Áreas frágeis, por serem muito íngremes ou por estarem próximas a cursos d’água cuja vazão varia muito ao longo do ano, são em geral ocupadas por populações pobres, na forma de favelas, de construções precárias ou de cultivos agrícolas em terras que, embora mais férteis, são menos exploradas justamente por serem muito frágeis ou de difícil acesso. A concentração de renda, a baixa de escolaridade, o acesso precário a informações sobre os riscos, a falta de organização política dos segmentos desfavorecidos da sociedade, são alguns dos muitos fatores que contribuem para uma exposição maior de populações pobres a possíveis desastres naturais.

Outro fator fundamental diz respeito aos conhecimentos científicos disponíveis sobre áreas de risco de desastres naturais e a apropriação desses conhecimentos pelas populações dessas áreas. Alguns eventos naturais, como chuvas, ventos e nevascas, são previsíveis e a ciência dispõe cada vez mais de equipamentos para monitorá-los e de modelos matemáticos para prevê-los. Outros, como vulcões, terremotos e tsunamis, embora os conhecimentos científicos disponíveis sobre eles sejam cada vez maiores, não temos como prever quando exatamente irão ocorrer. Mas é necessário um sistema eficiente de defesa civil, suficientemente articulado com a sociedade local, para tomar decisões rápidas em situações de risco.

Nos Estados Unidos, por exemplo, existem atualmente 169 vulcões geologicamente ativos, dos quais 54 representam um risco muito grande para a segurança pública. O Serviço Geológico americano (USGS) monitora esses vulcões em tempo real, em colaboração com universidades e agências estatais. É possível prever erupções iminentes e promover a retirada de comunidades em risco. Apesar do monitoramento, não é possível prever o momento exato da erupção. Em maio de 1980, por exemplo, a explosão do monte Helena, a 160 quilômetros ao sul de Seattle no estado de Washington, provocou 57 mortes e destruiu uma floresta de 10 milhões de árvores. O primeiro a morrer foi um vulcanólogo que trabalhava na estação sismográfica local. Mas a ação da defesa civil e de instituições governamentais possibilitou a retirada de milhares de pessoas da zona de risco, dias antes do início das erupções, que duraram seis anos.

Mesma sorte não teve a população do vale do Armero, nos Andes Colombianos. Os vulcanólogos sabiam que a erupção do Nevado Del Ruiz, um vulcão a 5.389 m de altitude, era de alto risco, e que no seu topo havia uma calota de gelo perene de cerca de 17 km2. Mas nenhum procedimento de evacuação da população local foi implantado. Em novembro de 1985, mais de 23 mil pessoas perderam a vida, soterradas por um lahar, mistura de gelo fundido, cinzas vulcânicas e fragmentos de rochas. No Congo, durante meses, cientistas emitiram alerta de uma possível erupção do Monte Nyiragongo, localizado próximo a Goma, cidade congolesa de 400 mil habitantes. Mas as instituições governamentais não estavam em funcionamento no local e o alerta não foi considerado. Em janeiro de 2002, a população de Goma teve que fugir às pressas, sem orientação ou preparação. A erupção do vulcão Nyiragongo destruiu 15% de Goma e dezenas de milhares de pessoas ficaram sem suas casas.

Matthew Kahn, no trabalho intitulado "The Death Roll from Natural Disasters: the Role of Income, Geography, and Institutions"², analisou grandes desastres naturais ocorridos em 73 países (pobres, médios e ricos), entre 1980 e 2002, e concluiu que os desastres naturais distribuem-se equitativamente pelo globo. No entanto afetam as populações de forma diferente. No período estudado, a Índia teve 14 grandes terremotos, nos quais morreram 32.117 pessoas, enquanto que nos Estados Unidos ocorreram 18 grandes terremotos, no mesmo período, que causaram 143 mortes.
 
Ou seja, a Terra trata todos seus habitantes da mesma forma, mas as desigualdades geradas nas relações humanas tornam uns muito mais vulneráveis que outros.

¹ Esses dados constam do trabalho de Emerson Vieira Marcelino, do Centro Regional Sul (CRS) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, intitulado Desastres Naturais e Geotecnologias: conceitos básicos, publicado em 2008. Disponível em www.inpe.br/crs/geodesastres/cadernodidatico.php, acessado em 12/02/2010. No portal do Núcleo de Pesquisa e Aplicação de Geotecnologias em Desastres Naturais e Eventos Extremos do CRS/INPE podem ser consultadas inúmeras informações sobre desastres naturais.

²Matthew E. Kahn. The Death Toll from Natural Disasters: The Role of Income, Geography, and Institutions. Review of Economics and Statistics, May 2005, Vol. 87, No. 2, Pages 271-284.

Saiba mais:
- Decifrando a Terra, livro organizado por Wilson Teixeira, Maria Cristina M. de Toledo, Thomas, R. Fairchild e Fabio Taioli. São Paulo: USP; São Paulo: Oficina de Textos. 2000. 568 p.

 

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Maria Leonor Assad
    São Carlos, SP, Brazil
  • Engenheira Agronôma pela Universidade Federal de Viçosa, Doutora em Ciência do Solo pela Université de Montpellier II, Professora do Departamento de Recursos Naturais e Proteção Ambiental da Universidade Federal de São Carlos – Campus de Araras. Atua nos seguintes temas: aptidão agrícola de terras, biofuncionamento do solo, fertilizantes alternativos, relação solo e ambiente, integração de dados ambientais e zoneamento pedoclimático.



  • e-mail: leonorrcla@gmail.com