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Começo, meio e fim

No começo, humanos provavelmente se comunicavam com sinais e gestos, e aos poucos sofisticaram-se as maneiras de comunicação, culminando nas chamadas línguas naturais, como o português, o inglês, etc. São ditas naturais em contraposição às linguagens de programação de computador. A aquisição de linguagem, ou seja, o aprendizado de uma língua natural permite ao homem aprender constantemente, assim como expressar seus conhecimentos.

Usando língua natural podemos descrever o mundo, as sensações, os sentimentos, de maneira direta ou através de metáforas, causando impacto nos interlocutores ou leitores também de maneira variada. Formam as línguas naturais, portanto, o que chamo da linguagem do conhecimento primordial. Desta depende toda aquisição de conhecimento.

A despeito da riqueza dessa linguagem, ela não é suficiente para expressar todo conhecimento que os humanos acumularam ao longo dos séculos. Se por um lado é possível explicar, e entender, que um objeto cai devido à lei da gravidade, a linguagem representada pelas línguas naturais não é suficiente para explicar muitas outras coisas. Como prever a trajetória de uma nave espacial rumo à Lua ou a Marte, por exemplo. O fenômeno é essencialmente o mesmo, mas expressar conhecimento mais detalhado requer utilização de modelos matemáticos, cujo grau de sofisticação depende da situação analisada.

A linguagem dos formalismos matemáticos é a segunda linguagem do conhecimento.

O desenvolvimento desse segundo tipo de linguagem teve conseqüências enormes para a civilização. Foi responsável pelo sucesso de diferentes povos, em diferentes etapas da história. Pois o conhecimento foi e continua sendo o elemento essencial para o progresso de uma Nação. Isso foi ainda mais pronunciado no Século XX, em que o progresso tecnológico suplantou em um só século todo o progresso humano acumulado em milhares de anos de civilização.

De fato, o século XX acabou por ser singular em desenvolvimento tecnológico, que eu atribuo a uma conquista fundamental: o decifrar da estrutura da matéria. Com os trabalhos de Einstein e dos pioneiros da mecânica quântica, hoje sabemos do que é feita a matéria e como ela funciona.

Mas e o título da coluna? Tomando a Grécia antiga como o começo, para fins de ciência e tecnologia estruturada, havia retórica e lógica. Eram estas as disciplinas fundamentais para expressar conhecimento. Hoje, tomado como o meio, as linguagens do conhecimento – representadas pelas línguas naturais e a dos formalismos matemáticos – desempenham esse papel.

E o fim, que está por vir, dependerá cada vez mais do aprender a aprender. Nossa sociedade do conhecimento tenderá a privilegiar cada vez mais aqueles que adquirem novas habilidades com eficiência e rapidez. O requisito fundamental para isso é dominar as linguagens do conhecimento.
 
Um leitor atento pode indagar qual linguagem do conhecimento é responsável por representar a expressão artística. Há muito que o homem expressa conhecimento pela pintura, escultura. Estas não foram incluídas na minha classificação de linguagens do conhecimento. Percebo que preciso estender minha definição, mas falta-me jeito para a coisa, tão distante que sempre estive das artes. Quem sabe o leitor pode me ajudar!            

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Osvaldo N. Oliveira Jr.
    São Carlos, SP, Brazil
  • Professor titular do Instituto de Física de São Carlos, USP. Membro fundador do Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC). Editor associado da revista Journal of Nanoscience and Nanotechnology. Recebeu o Prêmio Scopus 2006, outorgado pela Elsevier e a Capes, como um dos 16 pesquisadores brasileiros com maior produção científica, com base no número de publicações, citações e orientações na pós-graduação.

  • e-mail: chu@ifsc.usp.br