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Notas acerca do trabalho de sobreasseveração midiática

  • Com o avanço dos estudos das Ciências da Linguagem, a pretensa neutralidade interpretativa da mídia é colocada em xeque.

Os meios de comunicação de uma maneira em geral argumentam que ao transmitirem uma determinada informação o fazem com base numa absoluta neutralidade interpretativa. Advogam que o trabalho da mídia é transmitir objetivamente uma determinada notícia. Ademais, a mídia com o apoio dos avanços tecnológicos tem desenvolvido maneiras de preservar nas informações que veicula esse efeito de imparcialidade. Todavia, com o avanço dos estudos das Ciências da Linguagem, mais especificamente daquelas que se debruçam sobre a compreensão do funcionamento dos textos e dos discursos, a pretensa neutralidade interpretativa da mídia é colocada em xeque. Os estudos do texto e do discurso, sobretudo os que tomam como objeto a mídia têm deixado cada vez evidente, que sob a aparente neutralidade midiática, há todo um trabalho de interpretação, de direcionamento dos sentidos.

No último dia 14 de novembro a UOL publicou em sua página inicial um conjunto de enunciados que foram ditos pelos líderes do G-20 sobre a crise econômica mundial nos últimos meses. Os enunciados foram inseridos em balões de forma semelhante ao procedimento adotado pelos autores de histórias em quadrinhos. Ao lado de tais enunciados o provedor deu a circular fotografias desses líderes. Logo acima das fotos havia três nomes que os classificavam como Otimistas; Pessimistas e Críticos do Capital. Dentre os Críticos do Capital estavam, por exemplo as fotografias dos presidentes Luis Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez.

Para nossa reflexão tomaremos os enunciados “proferidos” pelo presidente Lula: “As pessoas vêm me perguntar sobre a crise, eu respondo vai perguntar pro Bush. A crise é dele, não minha”. Os enunciados em questão foram destacados de um pronunciamento feito pelo presidente Lula durante a inauguração da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), no dia 19 de setembro passado, em Mossoró (RN), e da Usina Termelétrica de Jesus Soares Pereira (Termoaçu). Na ocasião disse o presidente: “As pessoas vêm me perguntar sobre a crise, eu respondo: vai perguntar pro Bush, a crise é dele não é minha. Eu tenho é que cuidar do meu país para ele não ser atingido”, Neste breve texto, meu objetivo é discutir um pouco mais acuradamente sobre esse procedimento realizado pelo UOL, muito comum no jornalismo brasileiro atual que é destacar um determinado enunciado de uma fala maior. Trata-se de um procedimento de citação da fala do outro. Um procedimento em que um enunciador ancora a sua fala na fala de um outro sujeito. Contudo, um procedimento de citação que não se apresenta da mesma forma que o recurso ao discurso direto, por exemplo, visto que o enunciado é destacado sem que apareça a fala do enunciador que realizou tal destaque, marcada tradicionalmente pelo uso do verbo dicendi mais a conjunção que e, nem de que contexto tal enunciado foi destacado.

O teórico francês do discurso Dominique Maingueneau conceitua procedimentos semelhantes a esse do UOL como sobreasseveração. Para Maingueneau (2008) qualquer seja a modalidade da asseveração implica uma figura de enunciador que não apenas diz, mas mostra que diz o que diz e, presume-se que o que ele diz condensa uma mensagem forte, induzindo a uma tomada de posição exemplar. A sobreasseveração estabelece uma asserção que leva a uma responsabilidade diante do mundo. Em outras palavras, na sobreasseveração temos um procedimento que não apenas põe em evidência um enunciado que foi dito por um enunciador diferente do enunciador jornalista, mas um procedimento que se constitui numa tomada de posição no interior de um conflito de interpretações. Ou seja, o enunciador jornalista ao recortar um fragmento da fala do outro está interpretando a fala desse outro e no mesmo processo direcionando o público a aderir a essa interpretação.

Com esse procedimento há uma amplificação da figura desse enunciador, que por um lado se apresenta com o único sujeito autorizado a realizar tal procedimento e, por outro, por mais paradoxal que isso possa parecer, se desresponsabiliza pelo que foi dito, uma vez que não é possível identificar marcas de seu discurso no discurso do outro. Não há na materialidade lingüística um único vestígio da destacabilidade realizada pelo enunciador jornalista. É como se o trabalho enunciativo do recorte da fala do outro, realizado pelo enunciador jornalista, não existisse.

Em última instância e voltando ao enunciado em questão: “As pessoas vêm me perguntar sobre a crise, eu respondo vai perguntar pro Bush. A crise é dele, não minha”. É Lula quem será cobrado pela sua asserção acerca da crise mundial e não o enunciador jornalista que realizou o recorte da fala do presidente. O enunciador dificilmente sofrerá uma sanção pela colocação em cena do conteúdo proposicional da fala do outro e nem pelo destaque. Trata-se de um dizer que por meio do destaque da fala do outro esconde o trabalho interpretativo do enunciador jornalista, mas que não resguarda o autor da responsabilidade da sua fala, muito menos deixa de exigir do co-enunciador, do leitor uma resposta. Esse procedimento enunciativo produz uma espécie de hiperproteção do enunciador jornalista. O destaque da fala do outro protege o enunciador jornalista de possíveis sanções legais que este poderia sofrer por dizer a fala do outro.

O enunciador jornalista se constitui num sobreasseverador que se sobrepõe, tanto ao seu leitor quanto ao outro do qual recorta a fala, mostrando uma imagem de si, um ethos de um sujeito autorizado a realizar o trabalho de destaque da fala da outro. Trabalho esse que é realizado sob a validação da instituição midiática, no caso em análise da UOL, que estabelece valores para além das interações e das argumentações. Trata-se de um trabalho de direcionamento de sentidos, de constituição de subjetividades em que sem que se dê conta, o leitor é levado a aderir à interpretação do enunciador jornalista e por extensão ao posicionamento do veículo midiático no qual esse jornalista está inscrito. O anteriormente enunciado evidencia que as Ciências da Linguagem têm muito a nos dizer sobre o funcionamento da mídia na nossa sociedade atual. Até um próximo encontro.

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Roberto Leiser Baronas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Doutor em Lingüística e Professor no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSCar. Traduziu diversos artigos e livros de Dominique Maingueneau, Jacques Guilhaumou, Oswald Ducrot e Jean-Jacques Courtine. É organizador e autor de diversos livros e artigos no domínio da Análise do Discurso de orientação francesa. Foi um dos elaboradores do Plano Estadual de Ciência e Tecnologia para o Estado de Mato Grosso - 2004/2007 e também do projeto de criação do Centro Estadual de Educação Profissional e Tecnológica de Mato Grosso - CEPROTEC-MT. É editor responsável pela Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem - Linguasagem. Tem experiência na área de Lingüística e Formação de Professores com ênfase no domínio da Análise do Discurso, atuando principalmente nos seguintes temas: análise do discurso, discurso político, derrisão, interpretação, leitura e lingüística.
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