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Imagens distorcidas de língua na mídia

A manchete ao lado, publicada em um Jornal de Araraquara em 2008, nos mostra o quanto a mídia brasileira mantém-se ignorante e preconceituosa em relação às questões lingüísticas e ao seu ensino. O que o Jornal designa como um “castigo para a língua portuguesa” não passa de um ponto de vista científico de uma simples falta de acentuação gráfica.

Observem que TODAS as palavras que supostamente, segundo a manchete estariam castigando a língua portuguesa, seguem rigorosamente as estruturas silábicas do português brasileiro. Ou seja, tanto utilidades domesticas quanto facas, facões, canivetes, cestarias, vasos, enfeites, lampadas seguem o padrão mais freqüente do português brasileiro que é a ocorrência C+V (consoante + vogal) ou CVC (consoante + vogal + consoante) no início das sílabas dos vocábulos brasileiros. Para deixar mais claro, tomemos a partir da suas seqüências silábicas, as palavras domesticas e lampadas, as quais segundo o Jornal, estariam contribuindo para castigar a língua portuguesa:


O falso argumento contido na manchete: “O desconhecimento das regras formais da língua e principalmente a ausência de preocupação pela busca das formas corretas de escrever podem gerar, com a repetição, um retrocesso no aprendizado”, é completamente desmentido pelo exemplo arrolado. Esse exemplo evidencia por um lado a rigorosa inscrição dos vocábulos na estrutura silábica do português e, por outro que a pessoa que escreveu as palavras domesticas e lampadas, mesmo sem a devida acentuação gráfica, conhece muito bem as regras formais da língua portuguesa. Se a pessoa tivesse escrito “dmsticas” ou “lmpadas”, por exemplo, aí sim é que poderíamos dizer que ela estaria incorrendo em erro de língua portuguesa, uma vez que o português brasileiro não admite em início de vocábulos a ocorrência de três consoantes mais uma vogal: CCC+V. Seqüência essa, no entanto, que é perfeitamente admitida em vocábulos como stráda no Crioulo de Santiago, a língua mais falada no arquipélago de Cabo Verde na África e por uma grande parte dos cabo-verdianos que moram atualmente em Portugal.

Tampouco seria erro de língua se a pessoa tivesse escrito “dmesticas”, por exemplo: estrutura silábica CC+V que é admitida em vocábulos do português oral de Portugal. Aliás, o exemplo serve também para ilustrar uma das diferenças marcantes entre o português europeu e o português brasileiro que é justamente a queda das semivogais entre as consoantes. Embora o português brasileiro não admita a seqüência d + m em início de vocábulos, ele admite outras seqüências com CC+V como é o caso das palavras praça, cruz e chuva.

A falta de acentuação gráfica nos exemplos arrolados pelo Jornal não se constitui num problema de língua e sim de ortografia. Seria um problema de língua se a pessoa que escreveu os vocábulos os tivesse escrito não seguindo a estrutura silábica do português. Por exemplo, se ela tivesse grafado a palavra lampadas com dois ésses finais: lampadass. Esse tipo de estrutura CC em final de palavra, exceto em palavras oriundas do inglês, (miss ou shopping, por exemplo) não é permitido no português brasileiro. Contudo, perfeitamente possível no ucraniano, por exemplo: mist (‘ponte’).

A língua diferentemente da ortografia varia de classe social para classe social, de uma situação comunicativa para outra, de uma região para outra, de uma faixa etária para outra, de um período histórico para outro, etc. Enquanto a ortografia é homogênea, a língua é constitutivamente heterogênea.

É falacioso afirmar, portanto que a falta de acentuação se constitui num castigo para a língua, uma vez que esse tipo de problema não afeta a língua. A falta de acentuação não implica que as pessoas não entendam a mensagem expressa e implica muito menos provocar qualquer mudança na estrutura da língua. A ortografia, produto de uma convenção social, embora seja a parte mais visível de uma língua não é o seu centro. As línguas não estão organizadas em torno da ortografia. Uma língua se define por um sistema de regularidades fônicas, gramaticais e lexicais. Há no Brasil pelo menos duas dezenas de línguas indígenas que são ágrafas e nem por isso seus usuários deixam de se comunicar, ou de reivindicar seus direitos por melhores condições de vida. Mesmo o Crioulo de Santiago mencionado anteriormente só muito recentemente é que passou a ter um alfabeto unificado.

Também a incorporação de estrangeirismos tão questionada por alguns “estudiosos” como algo que estaria corrompendo a nossa língua não implica que o português esteja se inglesando-americanizando, por exemplo. Palavras como deletar e escanear tão presentes no nosso dia-a-dia são as provas cabais do que estamos asseverando.

Ademais, é possível observar ainda que o Jornal a partir do enunciado: “... com a repetição, [podem gerar] um retrocesso no aprendizado...” erroneamente acredita que o ensino de uma língua se efetiva pela mera repetição das formas lingüísticas, mas deixemos esse ponto para o texto da próxima edição. Vale dizer que não estamos advogando por um vale tudo na grafia das palavras, o que estamos evidenciando é que a mídia, principalmente no tocante às questões de linguagem, precisa buscar fontes mais confiáveis antes de noticiar qualquer acontecimento. O anteriormente exposto evidencia que as Ciências da Linguagem têm muito a nos dizer sobre a premente necessidade da qualificação do debate na mídia acerca das questões de língua. Até o próximo encontro.

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Roberto Leiser Baronas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Doutor em Lingüística e Professor no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSCar. Traduziu diversos artigos e livros de Dominique Maingueneau, Jacques Guilhaumou, Oswald Ducrot e Jean-Jacques Courtine. É organizador e autor de diversos livros e artigos no domínio da Análise do Discurso de orientação francesa. Foi um dos elaboradores do Plano Estadual de Ciência e Tecnologia para o Estado de Mato Grosso - 2004/2007 e também do projeto de criação do Centro Estadual de Educação Profissional e Tecnológica de Mato Grosso - CEPROTEC-MT. É editor responsável pela Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem - Linguasagem. Tem experiência na área de Lingüística e Formação de Professores com ênfase no domínio da Análise do Discurso, atuando principalmente nos seguintes temas: análise do discurso, discurso político, derrisão, interpretação, leitura e lingüística.
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