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Uma nota sobre ideologias e textos didáticos


Recentemente ao escrever um artigo sobre a possibilidade de um tratamento discursivo dos adjuntos adverbiais, pensando-os não mais em termos de elementos que instauram o tempo na língua, tal como propõem as gramáticas tradicionais, mas como índices de historicidade, isto é, lugares discursivos nos quais o discurso se ancora mais fortemente na língua, deixando entrever o posicionamento ideológico do sujeito enunciador, entrei no site do UOL para buscar uma definição do modo indicativo e de seus tempos verbais. Sempre que preciso dessas definições gosto de ir diretamente às gramáticas. Todavia, justamente naquele momento por estar em trânsito do MT para SP fiquei impossibilitado de ter acesso às minhas gramáticas. Ao chegar ao link desejado - http://educacao.uol.com.br/portugues/verbo-3.jhtm - deparei-me com a seguinte definição:

 

O modo indicativo e seus tempos
O presente pode ser empregado para: a) indicar os eventos que se desenrolam simultaneamente ao momento em que o discurso é produzido: Estamos hospedados na casa de amigos. b) expressar ações habituais: Nós vamos ao cinema ao menos uma vez por semana. c) narrar fatos passados, atribuindo-lhes atualidade, sendo chamado de presente histórico: A Revolução de 1964 trata-se de um movimento político-militar deflagrado em 31 de março de 1964 com o objetivo de depor o governo do presidente João Goulart. Sua vitória provoca profundas modificações na organização política, econômica e social do país. d) indicar um evento que pode realizar-se num futuro próximo: Nós vamos à praia no próximo fim de semana. e) expressar um conselho, uma ordem indireta ou um pedido: Você começa essa dieta hoje! (grifos meus).

Gostaria de chamar a atenção para o enunciado que exemplifica o funcionamento temporal do chamado presente histórico, item “c” da citação: A Revolução de 1964 trata-se de um movimento político-militar deflagrado em 31 de março de 1964 com o objetivo de depor o governo do presidente João Goulart. Sua vitória provoca profundas modificações na organização política, econômica e social do país. Esse enunciado de um ponto de vista da sintaxe da língua portuguesa não apresenta nenhum problema, visto que os elementos que o constituem seguem as regularidades sintáticas do português. Trata-se, portanto, de um enunciado gramatical. De um ponto de vista semântico, especificamente a partir do olhar de uma semântica geral, esse enunciado está também muito bem formado, visto que expressa com clareza o pensamento do seu autor.


Entretanto, de um ponto de vista discursivo, que busca compreender as relações entre linguagem e história, esse enunciado é problemático. Considero-o problemático, pois reforça um único ponto de vista, qual seja, o ponto de vista oficial acerca do golpe militar de 1964. Dito de outro modo, o enunciador ao colocar em forma de sintagma nominal os elementos A Revolução de 1964 e em forma de sintagma verbal os elementos trata-se de um movimento político-militar deflagrado em 31 de março de 1964 com o objetivo de depor o governo do presidente João Goulart. Sua vitória provoca profundas modificações na organização política, econômica e social do país dá a circular em forma de acontecimento discursivo a versão que a direita brasileira construiu acerca do acontecimento histórico golpe militar. Ou seja, pela maneira como os elementos lingüísticos foram mobilizados é possível dizer que o enunciador fala do lugar discursivo da direita e nesse mesmo processo silencia a possibilidade de os outros sentidos serem enunciados.


Silencia, por exemplo, o sentido de o evento histórico Revolução de 1964 ter se constituído num golpe militar, no qual os militares por meio de violência real – uso de armas – e violência simbólica - atos institucionais - instalaram a censura e extinguiram a democracia no Brasil e, sobretudo, omite que centenas de pessoas, contrárias ao golpe foram cruelmente assassinadas ou na “melhor” das hipóteses foram expulsas do Brasil.

O enunciado em questão discursivizado em terceira pessoa do singular embora seja apresentado pelo seu enunciador num tom didático, proporcionando instrução e informação, o que implicaria certa “isenção” ideológica, é manifestadamente favorável à versão oficial sobre a ditadura militar.


Acredito que deveria existir uma maior fiscalização do MEC em relação a esse tipo de texto didático, independentemente do suporte no qual ele esteja alocado. Falo isso por conta da avaliação que o MEC realiza regularmente sobre os livros didáticos das mais diversas áreas do conhecimento. A avaliação não deveria se restringir somente ao livro didático em si, tal como é feita atualmente, mas a todos os suportes que dão a circular textos didáticos.


Na avaliação realizada em 2007, por exemplo, o MEC reprovou o livro do historiador Mário Schmidt "Nova História Crítica", justamente pelo fato de o livro supostamente doutrinar ideologicamente os alunos que o utilizavam em sala de aula. Desse modo, o livro de Schmidt deixou de fazer parte do Programa Nacional do Livro Didático em 2008. Nesse sentido, em que medida o enunciado em questão ao dar a circular o evento histórico golpe militar como uma revolução enquanto um movimento político-militar também não estaria doutrinando ideologicamente os seus leitores?
Defendo que os textos didáticos, independentemente da área de conhecimento na qual estejam inscritos e do suporte no qual sejam dados a circular, tragam exemplos que explicitem as definições apresentadas, contemplando sempre os mais heterogêneos pontos de vista.  Até o próximo encontro.

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Roberto Leiser Baronas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Doutor em Lingüística e Professor no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSCar. Traduziu diversos artigos e livros de Dominique Maingueneau, Jacques Guilhaumou, Oswald Ducrot e Jean-Jacques Courtine. É organizador e autor de diversos livros e artigos no domínio da Análise do Discurso de orientação francesa. Foi um dos elaboradores do Plano Estadual de Ciência e Tecnologia para o Estado de Mato Grosso - 2004/2007 e também do projeto de criação do Centro Estadual de Educação Profissional e Tecnológica de Mato Grosso - CEPROTEC-MT. É editor responsável pela Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem - Linguasagem. Tem experiência na área de Lingüística e Formação de Professores com ênfase no domínio da Análise do Discurso, atuando principalmente nos seguintes temas: análise do discurso, discurso político, derrisão, interpretação, leitura e lingüística.
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