colunistas
  • fonte pequena
  • fonte pequena
  • fonte pequena

Enunciados Concessivos: uma leitura discursiva


Em matéria divulgada dia 21/08 no site do UOL às 11:36h, cujo título é “Mercadante usa apelo de Lula para recuar na renúncia ao cargo de líder” de Gabriela Guerreiro e Márcio Falcão da Folha Online, em Brasília - folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u612987.shtml - é possível constatar a presença entre outros do seguinte fragmento: Apesar de permanecer no cargo, Mercadante criticou a decisão do comando do PT de orientar os senadores da bancada pelo arquivamento de todos os processos contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), no Conselho de Ética. É justamente sobre o enunciado concessivo - Apesar de permanecer no cargo - que eu gostaria de tecer algumas considerações. Essas considerações estão fortemente alicerçadas no trabalho “Problemas epistemológicos em Análise do discurso: o caso do enunciado concessivo” de Sylvie Garnier e Frederique Sitri¹.

Ao longo da história dos estudos pré-linguísticos  e linguísticos , retomando uma reflexão de Mattoso Câmara Júnior sobre a história da Linguística, a concessão, fenômeno lingüístico de ordem sintática, tem sido estudada a partir de diversos mirantes: gramática; retórica e linguística, entre outros.


Para a gramática a oração concessiva, introduzida no período por uma conjunção concessiva do tipo embora, se bem que, mesmo que, apesar de, ainda que se constitui numa oração subordinada adverbial. Esse tipo de oração introduz uma circunstância adverbial de concessão em relação à oração principal. Ou seja, introduz um fato subordinado e contrário ao da ação principal de uma oração, mas incapaz de impedir que tal ação venha a ocorrer.


Para a retórica esse tipo de enunciado se constitui numa figura de estilo por intermédio da qual se concede algo ao destinatário para melhor afirmar o ponto de vista defendido pelo orador, isto é, o orador concorda com o adversário em coisa passível de contestação com o objetivo de afirmar a sua tese.

Entretanto, para a Linguística o enunciado concessivo não apenas introduz uma circunstância adverbial em relação à oração principal, produzindo uma relação de conexão entre as duas orações, mas a partir de diferentes perspectivas enunciativas, que serão desautorizadas pelo locutor, estabelece entre as orações uma relação semântica que possui uma função argumentativa. Resumidamente teríamos então em relação ao enunciado que tomamos para a análise os seguintes esquemas:

Todavia, poucos são os estudos que se debruçam sobre esse fenômeno linguístico de um ponto de vista discursivo. Cremos que abordar tal fenômeno discursivamente seja bastante pertinente, pois essa visada possibilita pensar as relações conflituosas entre o linguístico e o histórico ou entre a estrutura e o acontecimento. Em outros termos, a abordagem discursiva permite que se pense os enunciados concessivos na sua relação ou com algo que veio antes, independentemente em outro lugar ou com saberes partilhados entre os membros de uma determinada comunidade.


No exemplo em análise, o enunciado concedido -  Apesar de permanecer no cargose apresenta como a retomada de um discurso anterior amplamente divulgado por toda a mídia brasileira: a decisão de Aluísio Mercadante de recuar na renúncia ao cargo de líder do Partido dos Trabalhadores no Senado Federal, usando o apelo do presidente Lula.


Trata-se, todavia, de uma retomada que não apresenta marcas explícitas do discurso primeiro no discurso segundo. É possível perceber, no entanto, que o enunciado concessivo em questão fornece uma espécie de representação do discurso primeiro no discurso segundo. Ou seja, o discurso segundo retoma não só o fato de Mercadante ter permanecido no cargo de líder, mas principalmente o fato de ele ter por um lado recuado na decisão de deixar a liderança e, por outro de ter usado o apelo do presidente Lula como justificativa para o recuo de sua renúncia.


O que o enunciado concedido -  Apesar de permanecer no cargoestá trazendo à tona não é simplesmente uma circunstância adverbial de concessão, ou uma suposta aceitação de um argumento do destinatário que seria usado para afirmar um ponto de ponto de vista do orador ou ainda a voz de um outro enunciador que seria desautorizada pela voz do locutor, mas principalmente o posicionamento ideológico de um sujeito frente à decisão de Mercadante.


Na verdade trata-se de um posicionamento que qualifica negativamente a decisão do petista. Essa qualificação da forma da expressão produz como um de seus efeitos uma restrição à interpretação. Ou seja, podemos até questionar se Mercadante criticou a orientação das lideranças petistas pelo arquivamento das denúncias contra José Sarney, por exemplo, mas não podemos questionar pela maneira mesmo como o enunciado concedido se apresenta retomando os discursos anteriores, que Mercadante usou o apelo do presidente Lula para recuar da sua decisão de continuar líder do PT.

Acreditamos que a breve análise realizada com o enunciado concessivo acima evidencia que o discurso possui lugares nos quais se ancora mais fortemente na língua, deixando um pouco menos opaco o posicionamento ideológico dos sujeitos. No nosso entendimento, descrever/interpretar tais lugares discursivos torna-se fundamental para a formação de leitores mais críticos. Até o próximo encontro.

¹Este artigo em sua versão brasileira foi publicado no livro “Homenagem a Michel Pêcheux: 25 anos de presença na Análise do Discurso”, Roberto Leiser Baronas e Fabiana Komesu (orgs). Campinas, SP: Mercado de Letras, 2008.
  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Roberto Leiser Baronas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Doutor em Lingüística e Professor no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSCar. Traduziu diversos artigos e livros de Dominique Maingueneau, Jacques Guilhaumou, Oswald Ducrot e Jean-Jacques Courtine. É organizador e autor de diversos livros e artigos no domínio da Análise do Discurso de orientação francesa. Foi um dos elaboradores do Plano Estadual de Ciência e Tecnologia para o Estado de Mato Grosso - 2004/2007 e também do projeto de criação do Centro Estadual de Educação Profissional e Tecnológica de Mato Grosso - CEPROTEC-MT. É editor responsável pela Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem - Linguasagem. Tem experiência na área de Lingüística e Formação de Professores com ênfase no domínio da Análise do Discurso, atuando principalmente nos seguintes temas: análise do discurso, discurso político, derrisão, interpretação, leitura e lingüística.
colunas Roberto Baronas