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“Quem entrega, entrega alguma coisa a alguém”: nem sempre!

  1. Numa dessas revelações de amigo secreto, típicas de final de ano, uma colega de departamento, conversando comigo acerca de problemas de linguagem, reclamando da influência do inglês na língua portuguesa, me disse o seguinte: "Há algum tempo atrás, observei que um determinado banco veiculou um anúncio na TV em que dois homens, um cliente de outro banco e o outro, do tal banco, cotejavam os serviços e vantagens de cada uma dessas instituições financeiras. No final da propaganda, o cliente do primeiro banco, triunfante, afirma: "A diferença é que o meu banco entrega". Entrega e ponto final, assim, nem mais nada a acrescentar. Confesso que tomei um susto na primeira vez que vi o anúncio!", diz a minha amiga. Como assim, "meu banco entrega"? Depois de me falar sobre essa propaganda, ela me perguntou: Você não acha que é um exemplo claro do uso do deliver no português? Visto que esse verbo no inglês pode significar, além de entregar algo a alguém, dar conta do recado, cumprir.

  2. Tentei responder a minha colega, naquele momento, dizendo que não se tratava de uma influência do inglês, mas não foi possível, pois outros colegas chegaram e acabamos mudando de assunto. Para não deixá-la sem resposta e por acreditar que a questão é relevante para os estudos lingüísticos, uso este espaço da Click. O verbo entregar, empregado na propaganda do tal banco, é mais um bom exemplo para podermos observar, sem cera ideológica nos olhos, que as línguas variam e algumas dessas variações podem se transformar em mudanças. Essas variações se dão por terem as línguas a capacidade de refletir e refratar a sociedade e, como em toda sociedade existe diferença de status ou de papel entre grupos ou indivíduos, elas também variam. Vale ressaltar que as variações são inerentes a todas as línguas naturais da humanidade. Ou seja, não se trata de um fenômeno do português, ocasionado, por exemplo, pelo fato de "não" respeitarmos a nossa língua. As variações que ocorrem nas línguas não são casuais. Há uma série de fatores tanto de natureza lingüística quanto de natureza extralingüística que influenciam na variação das línguas.


  3. Para deixar menos abstrata minha resposta, cito outros exemplos de verbos que tradicionalmente como entregar seriam classificados como bitransitivos, isto é, que necessitariam de algum tipo de complemento, quer seja de objeto direto e ou indireto, para serem perfeitamente entendidos: "Fulano bebeu demais no final de ano", "Fulano dirige muito mal", "Fulano cuspiu no chão". Observem que todos esses verbos concebidos pelas gramáticas tradicionais de Língua Portuguesa enquanto transitivos funcionam discursivamente como intransitivos. Não precisamos completar o sentido de bebeu, dirige ou cuspiu para sabermos que se trata de bebida alcoólica, carro, nos dois primeiros casos e de saliva, no último. Só complementaremos o sentido desses verbos, se quisermos indicar alguma coisa diferente. Por exemplo: "Fulano passou mal no final de ano e cuspiu sangue".

  4. Lingüisticamente falando, diremos que algumas palavras no português brasileiro, principalmente, as que indicam ação, como é o caso dos verbos citados, estão migrando da necessidade de um complemento explícito para a não-necessidade desse complemento. Ou seja, estão migrando da categoria de verbos transitivos (diretos ou indiretos) para a de verbos intransitivos. Lembremos por exemplo do nefasto “Rouba, mas faz”. Não é necessário que completemos o sentido do verbo roubar e nem o do verbo fazer, mesmo que estes sejam classificados pelas gramáticas como verbos transitivos. Todos “lembramos” os sentidos já cristalizados desses dois verbos. O uso desses verbos, caso não haja orientação de sentido em contrário, faz com que recuperemos os seus sentidos, estes por sua vez, com circulação garantida na nossa sociedade. Com efeito, o sentido desses verbos se constitui num saber partilhado entre os indivíduos de uma determinada comunidade: conjunto de discursos que foram pensados antes, independentemente em outro lugar e que se presentificam discursivamente no enunciando mesmo estando ausentes lingüisticamente. Numa construção tipicamente francesa, traduzida para o português diríamos que estes sentidos estão presentes pela ausência. Em outros termos, o entregar intransitivo com o sentido de cumprir o que promete não se constitui numa espécie de "estrangeirismo semântico", como sugeriu a minha colega, mas de mais uma evidência de que língua e história se cotidianizam umbilicalmente. Ou seja, as palavras não caem de pára-quedas numa língua, como advogam muitos estudiosos, mas são o fruto de relações de poder, de disputas que se materializam na discursividade enquanto práticas linguageiras.  Até o próximo encontro.

  • Foto de Adílson de Oliveira
  • Roberto Leiser Baronas
    São Carlos, SP, Brazil
  • Doutor em Lingüística e Professor no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSCar. Traduziu diversos artigos e livros de Dominique Maingueneau, Jacques Guilhaumou, Oswald Ducrot e Jean-Jacques Courtine. É organizador e autor de diversos livros e artigos no domínio da Análise do Discurso de orientação francesa. Foi um dos elaboradores do Plano Estadual de Ciência e Tecnologia para o Estado de Mato Grosso - 2004/2007 e também do projeto de criação do Centro Estadual de Educação Profissional e Tecnológica de Mato Grosso - CEPROTEC-MT. É editor responsável pela Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem - Linguasagem. Tem experiência na área de Lingüística e Formação de Professores com ênfase no domínio da Análise do Discurso, atuando principalmente nos seguintes temas: análise do discurso, discurso político, derrisão, interpretação, leitura e lingüística.
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