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O Código e a Água - "Ganhar cada vez mais áreas de cultivo e diminuir as áreas de florestas significa produzir cada vez mais mecanismos de perda de água"

  • José Galizia Tundisi, membro titular da Academia Brasileira de Ciências

Em entrevista à ClickCiência, José Galizia Tundisi, presidente da Associação Instituto Internacional de Ecologia e Gerenciamento Ambiental e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, fala sobre os possíveis impactos que as alterações propostas ao Código Florestal podem acarretar nos recursos hídricos.

 

ClickCiência: Quais os pontos mais preocupantes na nova proposta do Código?

Um ponto bastante preocupante é justamente a dimensão das matas ciliares ao longo dos rios, porque a mata ciliar e o rio constituem um complexo único e você não pode delimitar por números de metros essa relação. É uma relação funcional e ecológica e não burocrática, então você não pode dizer que é 5 metros, 10 metros ou 30 metros. Depende da área de inundação do rio, da complexidade de cada rio e da relação do rio com a floresta. Em segundo lugar, é preciso entender que ganhar cada vez mais áreas de cultivo e diminuir as áreas de florestas significa produzir cada vez mais mecanismos de perda de água. Isso porque as florestas preservam água, elas são parte do ciclo hidrológico, elas repõem água para a atmosfera e, consequentemente, quando você corta uma floresta você está cortando um elemento importante do ciclo natural da água.

CC: Então a quantidade de água é prejudicada?

Exatamente! E também a qualidade, porque as florestas contribuem para preservar a qualidade da água. Estes são dois pontos críticos muito importantes em relação ao Código Florestal.

CC: Existe uma pressão dos ruralistas para que o Código seja menos restritivo em relação às áreas de várzeas. Você pode explicar a importância dessas áreas na manutenção do ciclo hidrológico, na ciclagem dos nutrientes e na depuração dos cursos d’água?

A várzea tem importância porque ela fixa nutrientes, fixa nitrogênio, fixa fósforo, fixa metais. Ela também perde nitrogênio no ar pelo processo de nitrificação; portanto, ela funciona como sistema regulador dos impactos na água, especialmente dos despejos de metais tóxicos, contaminação por nitrogênio, fósforo, pesticidas etc. Além disso, a várzea funciona como um sistema controlador de enchentes. Todas essas preocupações em preservar as várzeas são importantíssimas, uma vez que sem a várzea você tira os sistemas-tampão das bacias hidrográficas e aí você aumenta a erosão, aumenta as enchentes. Você retira o tratamento do sistema natural que filtra os contaminantes através dos serviços ambientais da várzea. Sem falar que as várzeas são áreas de alta biodiversidade

CC: Essas alterações vão aumentar os custos de abastecimento e tratamento das águas?

Sem dúvida nenhuma. Essas alterações vão influenciar, porque quando a várzea ou a floresta são permanentes elas fazem um serviço de limpeza do sistema, uma função natural muito bem conhecida. Quando você tira essas funções naturais, você aumenta a contaminação e aí, para produzir água potável e de qualidade, você precisa gastar mais produtos químicos e gastar mais dinheiro para preparar essa água.

CC: Quais os impactos disso em relação à biota aquática?

Se você aumentar a toxicidade vai estar excluindo algumas espécies que são suscetíveis a metais, a pesticidas, por exemplo, e portanto você altera a biodiversidade.

CC: No Brasil, a produção de energia é quase exclusivamente dependente das hidrelétricas. As alterações previstas no Código podem trazer alguma problema em relação ao sistema energético devido ao aumento dos sedimentos nos cursos d'água?

Esta é uma questão importante. O aumento da sedimentação nos cursos d'água, evidentemente, diminui a vida média dos reservatórios. Isso ocorre pois, com o aumento da erosão, causado pela inexistência da mata, a quantidade de sedimentos aumenta.

CC: E isso pode aumentar o custo de geração de energia?

Claro, porque a vida média dos reservatórios diminui e eles estarão inoperantes muito antes do que estariam se houvesse preservação.

CC: As florestas ripárias (matas contíguas a cursos d'água) também são responsáveis pela regulação do clima local. Você acredita que a diminuição dessas florestas pode causar impactos na agricultura em escala regional?

Em escala regional o mais problemático seria justamente aumentar a quantidade de erosão, aumentar o processo de erosão do solo, e com isso esses sedimentos iriam pros rios e, portanto, iriam interferir com a qualidade das águas dos rios e com a biota aquática. Dessa forma, o microclima local, com a presença das florestas e dos mosaicos de vegetação, também ficaria alterado, porque elas têm um efeito importante, por exemplo, na temperatura do solo, na temperatura da água. A retirada dessas matas ripárias e dos mosaicos de vegetação pode interferir nisso, especialmente se houver um aumento na temperatura por aquecimento global.

CC: As várzeas tem um papel importante na fixação de carbono, não é? A manutenção dessas áreas não seria estratégica para o País?

Claro que sim! O Brasil tem 600 mil km² de várzea e elas são importantíssimas como sistema tampão, tanto nas áreas rurais, quanto nas áreas urbanas. É importante manter essas várzeas ao longos dos rios urbanos e ao longo das áreas rurais, é de fundamental importância para manter os controles sobre o sistema natural, porque à medida que você retira a várzea, você perde esses controles naturais.

CC: Durante toda essa discussão da proposta, a Ciência foi deixada um pouco de lado. Ao longo de sua carreira como pesquisador, você já testemunhou algo semelhante?

Sempre há uma luta permanente, pois nós sabemos muito mais do que o sistema burocrático e o sistema político. Nós temos muito mais informações e eles podiam usar essas informações de uma forma mais adequada. Acontece que eles usam só uma parte da informação e isso faz com que aconteçam essas distorções no processo de gestão. Na verdade, sempre ocorreu esse problema, a Ciência produzida e o conhecimento não são bem disseminados. Em primeiro lugar, a culpa é um pouco dos cientistas, que não passam essas informações de forma adequada para a sociedade. Por outro lado, os políticos, os tomadores de decisão e os administradores não conseguem entender direito os processos porque eles não têm formação específica. Portanto, há uma necessidade de uma aproximação maior. Mas acredito que eles deveriam procurar mais informações porque nós, pesquisadores, temos muito mais informações. Cada um de nós sabe bastante coisa do sistema e às vezes não está nem publicado. Isto poderia ajudar mais ainda a fazer uma gestão melhor do território e dos recursos naturais do Brasil.

CC: Como você acha que os cientistas devem atuar para convencer o Senado a barrar o projeto?


Solicitando reuniões com senadores, solicitando discussões a partir do fato de que nós temos muitas informações e eles precisariam conhecer essas informações.

CC: E o sr. está sendo bem recebido?

Estou, porque não estou dialogando com os senadores em bloco, eu os procuro individualmente e também mantenho um diálogo com os deputados. O Ivan Valente (PSOL-SP), por exemplo, tem um conhecimento muito profundo sobre os problemas do Código e sobre a importância da Ciência nessa discussão. Ele tem ajudado muito nesse processo e é sem dúvida a pessoa mais preparada que encontrei para isso.

CC: Pra encerrar a entrevista, gostaríamos de saber o que você proporia para um novo Código Florestal?

O Novo Código Florestal deveria ajudar o Brasil a realmente ter um sistema de proteção da biodiversidade terrestre e aquática a altura do tamanho e das ambições do País, bem como da economia do País. Esse Código deveria investir mais na preservação do território para melhorar a preservação da biodiverdade e dos recursos hídricos e não no aumento do território para a produção agrícola. A produção agrícola deve ser aumentada com o aumento da eficiência dos meios produtivos e não com o aumento da área.Fim da reportagem